sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Delírio ao sol: sossego e tubarões em Magnólia de Marcia Tiburi

...o nonsense tinha tomado o meu pensamento e eu já não me importava com explicações plausíveis.
Apenas me dispunha a ver.
Magnólia, Marcia Tiburi 


Magnólia (Editora Bertrand Brasil) Capa: Silvana Mattievich

Magnólia (2005) é um romance de estreia e como toda estreia este livro é, antes de mais nada, repleto de conquistas, alegrias e vitórias. Os medos e as falhas existem alí, mas sobretudo para quem vibra e sintoniza com medos e falhas. Porém quem capta ondas de festa e coragem encontra também realização e prazer.

Há em toda obra de Marcia Tiburi a luta com o aparente. Precisamente com, e não contra, pois destruir o aparente é apenas uma das possibilidades que a ficção oferta – e talvez seja a possibilidade mais pré-visível.

Em Magnólia esta luta coloca em crise os meios e os extremos da visão enquanto capacidades e enquanto fantasmagorias. Da sina das videntes ao pior dos cegos que inventamos em nós mesmos, um mundo inteiro desaba sob uma perspectiva fotóptica, deixando os escombros da imagem expostos por palavras quase transparentes.

Então, como quem faz da asa de um inseto uma lupa, Marcia leva ao delírio o que se entende categórico, convincente e inabalável. E descobre, no lugar do imperativo, dois ou três segredos que convergem em limiar o que antes estava rendido ao próprio limite.

Um dos desenhos de Marcia Tiburi que está no romance Magnólia

No entanto não se trata de um delírio alienante, algo lunático, meramente patológico.

Não é também um delírio persecutório, como propõe Zambrano, pois embora em Magnólia o estranho, o desconcertante, o outro esteja tão presente, não se trata de um delírio gerador de deuses ou deus. É algo próximo do delírio que Deleuze propõe como criação de um estilo de vida que escapa ao que é imposto como familiar ou ainda que supera os impostos familiares.

Mais precisamente é um delírio superbrilhante – termo que Daniel Lins semeia para reconhecer o lugar de onde brota esta escritura que alimenta e destrói tal qual nas páginas deste romance e que reinventa a vida!

Delírio ao sol: essa luz negra que gira no farol da vida, de noite, de dia. Se perder o escuro guia. Caminho pro perto. Água de sede. Manhã é miragem desperta. Agora este delírio sobe pelo corpo espreguiçado até beijar a nuca. E depois escorre, grutal e incandescente, nas escamas da sereia que logo salta do rochedo para aurora e liberta a escuridão ancorada.

E nesta guerrilha de luz o leitor enfrentará olhos pálpebras cílios lágrimas lentes lupas manchas miras sombras claridades neblinas véu cortinas sonhos pesadelos ilusão – mas chegará ao final da leitura livre das viseiras de mula, livre das vendas e vitrines. Um leitor desvendado? Uma leitura desvendada! 

É o desacordo com a mera representação que cria uma estranha presença fiel, que segue o ideário da imagem até o final, até mesmo quando é preciso caminhar sobre a prancha e, depois da queda, enfrentar os tubarões da alteridade.

Tanto que Magnólia, o romance, está sempre preocupado com outra coisa que não é a ficção. Magnólia, a personagem, está sempre ocupada com o outro que não ela mesma.

O exercício da alteridade é em si mesmo um exercício de visão. Um exercício de não transformar o outro em um tapa-olho de pirata, mas de cuidar da visão como um Ciclope cuidaria.

Este cuidado com o outro é o que faz de Magnólia um romance-amigo, um livro-companheiro. Magnólia é, em última instância, um leitor vertido em livro e celebra exatamente toda a magia negra que é ler!

E a magia está justamente na força do possível – que é a força da poesia. E poesia, para Marcia, é bastante possível. Precisa ser possível. Marcia expõe as percepções do inevitável e esmiúça a relação com o alcance.

É uma escritura sóbria, sem extravagâncias e sem despropósitos, mas desabrochada, com aquele perfume de sortilégio que por vezes se choca ou se encontra com o caráter político de uma imaginação amadeirada, tão pungente quanto apurada e bordejante.

A autora lembra constantemente que não existe frase curta, não existe palavra breve, não existe uma escrita econômica. Em Magnólia o pequeno, o detalhe, ou mesmo o desimportante não está acuado na comparação, não é refém da função e não se rende à circunstância.

No encontro ou desencontro de possibilidades e decisões que a autora toma o romance não perde nada senão os rótulos. E até as referências, assumidas ou não, posto que rabeadas, não importam tanto, pois não é com elas que o leitor se situa. É com a perda.

As palavras vão formigando, fervilhando e desenham por fim um caminho subversivo, sem setas, sem certezas, mas de todo jeito na contramão. 

Magnólia, a personagem, é ordeira, mas insubmissa. Em suas mãos nada é uma coisa só. Transforma cartas em ensaios, bilhetes em tratados, poesia em aforismo, memória em pano, língua em agulha, ciência em ficção, método em surpresa. 

E onde estão as mãos de Magnólia senão no estreito da vida?! Então é lá que a intimidade, que circunscreve o romance, conversa o tempo todo com o abandono. Perto desse lugar o cenário de Magnólia – uma casa (?), um corpo (?), um dia (?) – emerge drástico, inquieto e mesmo mórbido.

Na verdade, a Trilogia íntima, que Tiburi inicia com Magnólia e que se finda com O manto (2009), passando por A mulher de costas (2006), é, para mim, toda atravessada por este fio de labirinto: o abandono – e tudo o que dele se desdobra como, por exemplo, os encontros.

Talvez por isso a generosidade da narrativa esteja sempre acompanhada pela dimensão do terrível. Magnólia é repleto de suspenses, perigos, terror. Ao mesmo tempo, ninguém grita. Ninguém grita. Como se o espanto fosse a forma de encontrar sossego. É o melhor do estilo on-the-road pois como sangue e silêncio este romance corre veloz e para dentro.

Magnólia é, enfim, um romance marginal. Porque caminha da escuridão para o breu e a cada passo trilha uma diferença que mostra o quão impossível é viver dentro do estabelecido, dentro da tenebrosidade da vida humana e animal, sempre à sombra da normalidade.

E viver fora significar ter que apagar alguma coisa. Talvez a luz. Mas o que diante da luz se apaga é que revela o real brilho do mundo. 

Dia ou noite, não importa, o demônio das sombras não descansa e não deixa ninguém descansar. E é esse demônio que Marcia enfrenta, sozinha, no escuro.

P. 

A escritora e filósofa Marcia Tiburi fotografada por Simone Marinho