segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Teoria da ação: feminismo e o poder de fala de Virginia Woolf



Teorias à margem: Virginia Woolf feminista

Pois a degradação de ser escravo somente se equipara à degradação de ser senhor.

A posição intelectual das mulheres
Virginia Woolf




A relação mais frequente que se estabelece entre a obra de Virginia Woolf e o feminismo, assim no singular, é determinantemente histórica, considerando apenas um modo de militância feminista e sempre com base nas especificidades políticas e sociais da autora. Na verdade, justo por tais especificidades, a crítica binária evidencia bravamente o que Woolf não fez, não disse e não pensou em relação ao feminismo. Tal postura crítica não passa de uma armadilha tão eficiente quanto maledicente.

Ora, com qual intenção se fala somente daquilo que uma feminista não fez e se recusa o que ela realizou? Apenas com a intenção de não colocar em cena o feminismo por menor ou mais frágil que este seja. Falar do que uma feminista não fez é o mesmo que falar de algo que não existe. Desse modo, apaga-se a questão do feminismo, das feministas e neste caso de ter uma escritora do porte de Woolf como feminista.

Assim, machistas, do modo mais ilegítimo e falacioso, falam de tudo o que for preciso, das próprias brochadas e mesmo do prazer anal recalcado, mas se recusam terminantemente a falar de feminismo. Falar de feminismo é admitir que este movimento existe, que as mulheres existem, e que elas realizam a desconstrução cultural, social, política, filosófica e poética do mundo em que vivemos.

Ora, a crítica binária a qual me refiro neste caso, dispensada ao feminismo de Woolf, se não for construída por machistas, é ocasionalmente machista pois ao evidenciar somente as falhas do feminismo de Woolf, soterra friamente as potencialidades que neles se encontram.


Virginia Woolf: feminismo e linguagem

No momento em que vivemos é possível falar, pensar e agir de acordo com vários feminismos e portanto com vários modos de militância feminista. Virginia Woolf, como todo vanguardista, foi visionária também neste aspecto e se propôs o tipo de feminismo, e portanto de ativismo, que conseguia fazer.

É preciso lembrar constantemente que enfrentar os limites da própria ação é ser ético. E que toda feminista enfrenta a crise de escolha de como exercer sua militância do modo mais verdadeiro e real, possível, pessoal.

Assim, pelas décadas de 1900 até 1940, Woolf defende o pensamento autônomo como forma de militância e empoderamento das mulheres. O interesse da escritora está em livrar as mulheres do senso comum, da mera opinião, lugares onde o machismo reside, mostrando os caminhos da reflexão e do argumento como alternativa de coragem.

O feminismo de Woolf luta contra a mudez vulgar e covarde que os homens impõem às mulheres, ainda hoje. Os homens entendem o discurso masculino como soberano, subjugando a fala das mulheres, amordaçando-as. Woolf marcou presença no campo do discurso, provando que mulheres também são tão capazes de elaborar as próprias ideias, de criar e sustentar conteúdos políticos, de pensar questões éticas plenas de decisão e juízo.

A violência no campo acadêmico, no campo do intelecto, no campo da linguagem pode não matar como um tiro em uma ocupação ou em uma manifestação, mas precisa ser enfrentada, não pode ser diminuída. E também exige estratégia e armas específicas. 

Uma vez que o feminismo luta por democracia a disputa pelo poder sempre foi disputa pelo discurso democrático. Virginia estava lutando por poder. Poder falar. Poder falar com mulheres. Poder falar consigo mesma. Poder falar com os homens, mas também poder falar contra os homens.

Em termos de linguagem, o machismo é uma forma de dominação vulgar cujo poder opressor mata o real das palavras. Para uma escritora, este é núcleo do mau. 

A construção do espaço político sempre dependeu da voz. Woolf sabia que a voz é o corpo da política, e isto não é uma metáfora. As palavras, sobretudo para uma escritora, são atos e, neste caso, são a própria militância. É possível existir um feminismo sem palavras, sem discurso, sem linguagem? Era nisto que pensava Woolf quando decidiu escrever artigos e ensaios sobre a condição das mulheres e a potência de tal condição.

Eis pois o que Woolf estava fazendo: uma ocupação. Na academia, nos círculos de debates estéticos, nos suplementos literários, em jornais e revistas, Woolf sempre estava empenhada a desautorizar o especialista que fosse buscar alguma opinião sexista para diminuir um romance, um ensaio, um livro de poesia assinados por mulheres – é o que ocorre nos artigos “A nota feminina na literatura” e “Mulheres romancistas” em que o posicionamento e a contra resposta de Woolf nos debates em curso não recua e consegue desconstruir os argumentos de seus interlocutores, homens, como W. L. Courtney, R. Brimley Johnson e Arnold Bennett que investem na ideia de que as mulheres são inferiores intelectualmente.



Corpus político e Corpo das mulheres: uma Virginia Woolf marginal

O feminismo de Woolf é, afinal, uma teoria da ação. E verticalizar esta teoria é a intenção da autora quando escreve os ensaios reunidos nos livros Um teto todo seu, O valor do riso e Profissões para mulheres e outros artigos feministas. Nestes textos Virginia se rebela contra a misoginia nos meios intelectuais, postura que se averigua também em seus diários e, portanto, na sua vida pessoal. E também se rebela contra o domus, contra o oikos, como não poderia deixar de fazer. “Matem o Anjo-do-lar!”, convoca, referindo-se a construção da feminilidade domesticada pelos homens que estimulam continuamente a docilidade de um comportamento morbidamente “afável, meigo, lisonjeiro, manhoso, submisso e, principalmente, puro” nas mulheres.

A ficção de Woolf também edifica-se em uma base feminista. Na biografia romanceada, Orlando, em que o corpo do homem é tirado de cena e corpo da mulher ganha todo foco, pode-se ler “Contanto que pense num homem, ninguém se opõe a que uma mulher pense”. A segunda, com a mesma estrutura lapidar, afirma-se contra a postura sexista do mesmo modo irônico, “Contanto que escreva bilhetes, ninguém se opõe a que uma mulher escreva”.  

Trata-se, portanto, de uma ação de transformação na cisão que exclui a mulher da pólis e, a partir disso, exclui das instâncias do encontro, do prazer e do diálogo um corpus (linguagem, poesia, política, ética, estética) e um corpo (o corpo da mulher). Assim, a mulher é reduzida a um ser sem qualquer potência e, nesse sentido, corpus filosófico e corpo da mulher, o corpo poético, permaneceram segregados um do outro por séculos. A transformação que Woolf endossa permite a autonomia desses corpos marcados pelo feminino com o corpus marcado pelo masculino e a transversalidade entre ambos.


Ora, o feminismo é diverso e também promove a tese de que age enquanto pensa, não por si mesmo, evidentemente, mas no corpo de quem é feminista.

Feminista, nesse sentido plural, é quem realiza essa ação-teórica na direção de uma releitura do mundo a contra pelo, diluindo dominações e fechamentos e criando autonomias e aberturas, portanto, transformando micro realidades na direção de liberdades individuais que não excluem a coletividade, mas se infiltram na coletividade, entusiasmam a coletividade, subvertem a coletividade, destroem a coletividade. É justo quem pratica, em nome de uma causa, a causa das mulheres, o abandono das meras dicotomias e transforma o que antes era imutável e excludente. E quando digo imutável e excludente refiro-me ao patriarcado.

Virginia Woolf sabia que a teoria da ação que o feminismo provoca também é engajamento, também é militância. Afinal, a ação assim chamada de “pura” do pensamento sustenta uma função política por si só. Portanto, interessa ao feminismo, sobretudo agora, as práticas subversivas de identidade, de identidade de gênero, de identidade sexual, o desmantelo dos estereótipos, o esgarçamento das polaridades e a prática do plural, do diverso, do que não se define tanto quanto do que é indefinível. 

É nesse sentido da ação-teórica do desmantelo que o feminismo cria relação com os ensaios de Woolf, com Orlando, definitivamente, mas sobretudo com a própria ficção de Virginia que sempre se fez na contramão, buscando o deslocamento, os sentimentos marginais, as ações de ruptura como o próprio feminismo. 

P. 

Imagens: Fotografias colhidas no site Pinterest do filme As horas (The Hours. Direção: Stephen Daldry. EUA/ENG,  Miramax/Paramount Pictures, 2002. 114 min, colorido – DVD).