quarta-feira, 29 de abril de 2015

Rebeldade política: ensaio sobre a prática da diferença em Clarice Lispector

Para Thaise Diaz que “deixou a chave cair” para mim.


 1 Rebeldade como potência

Clarice Lispector 1920-1977

Os contos as crônicas e os romances de Clarice Lispector realizam uma ficção animada, repleta de vigor e encorajamento, uma ficção de combate e força, com forte caráter de disposição, não de oposição, que luta por destruir o sentimento de inadequação quando este é uma acusação contra o pensamento reflexivo, imposto moralmente ao leitor tanto pela cultura como pelo capital ou por uma situação de mero poder, hierarquia.

Por isso, entrar em contato com a ficção de Lispector é entrar em contanto com a vontade de rebelar-se contra o que está imposto, contra o que é ditado, contra os padrões sociais, culturais, estéticos e políticos. Rebeldade como potência. E rebeldade é a lealdade ao caráter irreverente da insubmissão.

Tal vontade, evidentemente, só é possível através da leitura e da releitura dos livros de Clarice.

E, de fato, mais e mais rebeldade é engendrada nas releituras de tais livros.

A leitura é um fazer. Ler é uma ação, uma prática e, em Lispector, é também um dispositivo político no qual quanto mais o leitor se demora, além de se relacionar sem pressa com silêncio e voz, portanto com a própria subjetividade, mais se envolve e mais se espreguiça em rebeldade política.

A ficção, no presente contexto, atinge o grau político por realizar a interação entre o que há de mais rebelde e desobediente em nós mesmos com aquilo que não conseguimos evitar quando pensamos.
E quando digo de mais rebelde e desobediente não me refiro ao sentido moral – refiro-me ao sentido político, como já colocado.

Por que me afasto da questão moral?

Porque se existe moral em Clarice, é a moral dos poetas: uma moral sem conduta, sem repetição, sem ladainha; uma moral sem virtudes perfiladas, uma moral de qualidades espontâneas, incapaz da disciplina condicionada e estanque, posto que é uma moral visionária.

Portanto, a ficção de Lispector não se constitui ou se sustenta e também não se supera em uma perspectiva binária excludente com a intenção de disciplinar ou castigar e nem mesmo de corrigir ou salvar o leitor.

Clarice investe contra as meras inversões, os opostos, e investe ainda contra certas trindades como a família, a moral e os bons costumes que impõem uma realidade idealizada, portanto caduca, cuja vista curta e horizontal só consegue contar até dois: vida e morte, corpo e alma, mulher e homem, preto e branco, homossexual e heterossexual, mal e bem, certo e errado.

Aos opostos e à tríade do terror interessa somente o igual, o próximo, o semelhante, o familiar, a cópia, a reprodução. Interessa aquele que segue e que obedece e que consegue anular-se, diluir-se, compondo, assim, uma maioria, um rebanho.

Dentro de tal contexto, quem for diferente ou cultivar diferenças, quem se distingue da ideia de semelhança, ou quem de propósito deseja fortalecer-se na própria diferença será excluído como se excluiu o poeta da pólis, o leproso da multidão, o corpo do prazer – a não ser que este se cale, que aceite a cura, ou que se converta.

Ora, a política é justo o que não é familiar! Política é justo o que não é igual!

2 A ficção feminista e a prática da diferença
Hannah Arendt 1906-1975

A política baseia-se na diversidade dos homens e trata da convivência entre os diferentes, afinal, é justo na política que os homens buscam por meio de diferentes anseios, diferentes desejos, diferentes necessidades atingir a superação como fim da indiferença.

Indiferença é, em termos excessivamente diretos, a incapacidade de responder ao outro nas necessidades que ele apresenta ou na simples presença dele.

Por sua vez, nos mesmos termos, a diferença é a qualidade que permite que algo ou alguém se distinga dos outros.

A filósofa Hannah Arendt (1906-1975), no ensaio O que é política? sustenta que o sentido da política é a liberdade e que essa mesma política se inventa entre os homens, ou seja, a política é tanto uma criação quanto algo diverso. Arendt afirma que justo os homens diferentes são os pressupostos necessários para o surgimento de um espaço em que se torne possível a verdadeira política – essa que não vê na diferença algo de ruim, mas vê o caos inevitável de onde ela mesma surge.

Acovardar-se diante das diferenças não é fazer política, mas é moralizar e vulgarizar a política.

Por isso Arendt afirma sem pudores que a ruína da política “surge do desenvolvimento dos corpos políticos a partir da família”, pois desse modo se perde o que Arendt chama de princípio da diversidade, já que na ideia de familiar está resguardado o sentido de mera igualdade, de proximidade e de semelhança que anula a pluralidade intrínseca à política, impelindo o homem a ser de novo uma cópia, ser apenas aparentemente igual, moralmente igual. E, como sabe, não é a moral que garante direitos.

Nesse sentido a ficção de Lispector enquanto estância política instiga fortemente a prática da diversidade, da dissemelhança, do diferente, da distinção e do dissenso, pois ambas são, em si mesmas, núcleos de potência excepcionais inventadas no centro das realizações humanas incomuns.

E justamente por isso a ficção de Lispector é muito mais uma ficção feminista do que uma ficção feminina. Aliás, a prática da diferença, sobretudo no momento político atual, atende justamente pelo nome de feminismo.

Assim, literatura e política revelam a nossa capacidade de elaborar a experiência mais absolutamente original, singular e única: a capacidade de criar a própria diferença. Ou como dizem na linguagem cotidiana: fazer a diferença na prática.

P.