quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

O enigma da superfície: Modinhas ou a tese sonora de Érika Martins





     1.     O enigma da superfície

Modinhas (2014) é um disco com uma densidade peculiar, de grandes asas, e que justamente por isso revela, sem drama ou culpa, o peso da leveza. Rapidamente, sem confusão, atropelos ou dúvidas demasiadas, a identidade sonora do disco se impõe com elegância e decisão, provocando um flagrante sonoro no ouvinte, como se as linhas melódicas do disco criassem uma simbiose com a linha da vida, do amor, do destino, as linhas digitais que nos identificam. Identificar-se é algo fatal nesse disco que precisa ser ouvido com o corpo inteiro. Trata-se do melhor e mais recente álbum da carreira de Érika Martins.

Ouvi-lo é como viver a primeira sombra de um quintal, é um descanso contra aquilo que nos atordoa. É um disco muito orgânico, com gradações sempre em alta e com o gosto forte, misturado, caramelo sabor limão.

Além de consistente e criativo, é repleto de boas intenções, e com uma carga de autonomia e de empoderamento que unifica, sem perdas, a estética do projeto, todos os níveis de identidade visual, a concepção temática elaborada por Érika e por Constança Scofield e a atmosfera do disco, singular e onírica. Constança, aliás, genial como sempre, é a responsável pela direção artística do disco.   

Mas essa organicidade e essa coesão que Érika Martins conquista e oferece agora é, a bem da verdade, fruto de sua disposição e de suas coragens que ainda podem ser alcançadas em vários registros sonoros, um mais comovente que o outro, e em todos Érika surge exposta e completamente entregue – porém nunca tão completa quanto neste disco.

Libriana, com voz e fôlego de sereia, Érika sabe que alcança em segundos o aspecto mais profundo e niilista de todos os sentimentos. É como na letra de What I am (1988) de Edie Brickell: afogue-me na superfície antes que eu atinja o insondável.   

Desta vez, antes de mergulhar tão fundo, Érika resolveu curtir o enigma da superfície na pedra mais alta e dourada, elegeu o ocaso como sua areia do tempo e admirou sem pressa a onda e o rochedo antes de afogar velhos marujos como Villa Lobos, Manuel Bandeira, Sérgio Bittencourt, Tom Zé e jovens marinheiros como Gabriel Thomaz, Otto, Botika, Nevilton, Pedro Veríssimo, Marcelo Jeneci. Tudo isso sem descuidar jamais do silêncio!

Eis um ponto crucial e inquestionável no Modinhas: o silêncio. Nas letras, na produção, nas melodias, nas cores o silêncio é reconhecido e respeitado como ponto nevrálgico do que está em questão em última instância: música. Então urge pensar em Kafka (1917): as sereias, porém, possuem uma arma ainda mais terrível do que seu canto: seu silêncio. Érika sabe bem disso e em momento algum desperdiçou sequer uma gota do próprio silêncio.  

Nesse sentido, em Crepúsculo dos ídolos (1988), Nietzsche afirma que sem música a vida seria um erro, afinal, sem música a humanidade cairia na mudez mais covarde e absoluta. Para que não haja mudez, é preciso música. Para que haja música, é preciso silêncio. Não se trata de um mero silogismo, mas sim de séria veemência.

Por tal consideração ao inefável, a produção de Felipe Rodarte merece reconhecimento e gratidão, uma vez que ele aciona elementos às vezes tão distintos, às vezes tão paradoxais como sabor, temperatura, matizes, texturas em um mesmo sentido, porém, sempre com respeito ao designo de cada canção – tudo isso dentro de um disco temático, o que apenas complica as coisas.

Modinhas é simples (Dar-te-ei), arrojado (ModinhaSeresta peça nº 5) atrevido (Fundidos), fronteiriço (Vien Ici), lunar (ModinhaA Rosa), definitivo (Rolo compressor) – e flerta com vários limites para reinventar um lugar próprio, o lugar do coração, mas de um coração incandescente, um coração vibrante, abrasador, grutal.

Por isso é tão instigante e por isso também seria tão fácil errar. Rodarte mostrou controle e perspectiva tanto quanto delicadeza e vigor.


      2.     Tese sonora

Érika, por sua vez, surge mais e mais confortável e íntima, compondo para animar a festa da solidão, desafio a que poucos se arriscam.

Em um dos seus melhores discos, Buganvília (2001), Érika fala o tempo inteiro de despedidas, desencontros, abandonos e sozinhez (para lembrar Hilda Hilst), mas sempre afirmando à vida, sempre indo ao encontro de si mesma, transfigurando o espelho e se recriando, feliz.

No Modinhas, essa atitude ganha mais força já que Érika atingiu o osso de suas metáforas, está mais subversiva, e o real é a sua lírica agora. Garota interrompida e Memorabília são canções diretas e mordidas. Ambas são assinadas com aquela mesma perplexidade, a mesma revolta contra o refrão e os seus significados e, claro, o velho e bom convite ao adeus contente que invade os estados de espírito da compositora.

Garota interrompida, porém, é tensa, rústica, sopra e espalha o fogo, te deixa em suspense, pensando... pensando... Memorabília já é toda decidida e desafiante e erige, em três versos, um mote feminista bastante aderente: esqueço as desculpas/pra mim o meu jeito sempre basta/não quero viver com você.

Basta dizer, por fim, que Modinhas pode ser entendido, e sentido, como a tese sonora de Érika Martins por mostrar uma originalidade marota, por aprofundar em um tema raro na mpb, por contribuir para a efervescência do rock e por dialogar com desenvoltura, e sem vassalagem, com vários autores. Mas sobretudo, e especialmente, por não render-se, e por cumprir dignamente com seus anseios, como deveria acontecer em toda tese, e ainda celebrar aquilo que nos faz potentes, a Vontade! 
P.





Imagens: respectivamente, Daryan Dornelles, Diego Rodriguez, Iris Martins.