terça-feira, 4 de novembro de 2014

Califórnia


O sangue no lençol. Acho que é a primeira lembrança que me vem à cabeça quando penso no meu pai. Durante anos nós dividimos o mesmo quarto e a mesma cama. O mesmo banheiro. No quarto, havia uma janela sem vidros e sem cortinas. Às vezes dava para ver a lua. Mas sempre dava para ver, dependurado num fio elétrico, um disco-voador colorido girando lentamente entre um par de tênis preto e um boneco do Fofão, decapitado. Eu também me lembro de um pesadelo recorrente com esse disco-voador. Eu tinha oito anos.

Mas quando por alguma razão sempre arbitrária eu tenho que pensar na minha infância, mais que lembrar, eu jamais consegui me esquecer da gata amarela goteiras frio baratas a geladeira vermelha e vazia lagartixa escorpião o rádio relógio e os socos que eu levava toda vez que molhava a cama.


O rádio relógio ficava mudo ao longo da noite. Às cinco e trinta da manhã despertava. Someone told me long ago. Alguém me disse há muito tempo. There’s a calm before the storm. Há uma calma antes da tempestade. I know… Eu sei…

Nunca soube se ele, meu pai, realmente apreciava tradução simultânea, pois prestava uma atenção demasiada. Não cantava junto, não sentia o ritmo. Não assobiava. Como se quisesse aprender inglês, na verdade. A canção não importava tanto. A voz do locutor era grave, mas com um veludo discreto, e tentava escapar do ridículo como podia: declamando. Para caber entre as frases originais a voz às vezes corria. Ou criava pausas trêmulas inventando uma pontuação que evidenciava o risco que é dublar alguma poesia. Você alguma vez viu a chuva? Have you ever seen the rain?

O meu pai trepando. O sangue no lençol. Eu não esqueço. E ali, do meu lado, eu o vi comer o cu de várias mulheres. Quase sempre sangravam. E quase todas vinham de madrugada, pagavam em dinheiro com três ou quatro notas, e tinham o dobro da idade dele. O meu pai era jovem. Devia ter uns vinte e sete anos.

Eu tentava ser discreto. Fechava os olhos. Ficava de costas. Tentava conter os meus sustos com os tapas. Mas para meu pai era indiferente se eu estava dormindo mesmo ou não. Ele estava mais atento ao “ai delícia! me fode vai!” que todas repetiam, sem exceção, emendado ao “não para! isso mete mais! mete fundo, mete com força!”. 

Parecia combinado. Não demorava muito até que ele, meu pai, respondesse ao texto de modo igualmente original “vou gozar! vou gozar!”. De pé na cama, elas de joelho, e ele banhava de porra os seios, a boca, o rosto delas. 

Eu cresci e fui embora. Dois anos depois me mudei de país. Desde então, vivo na Califórnia. E hoje eu soube, por e-mail, que meu pai foi assassinado com um tiro de bala dundum. O crime aconteceu há três dias. A razão é desconhecida. A polícia está investigando. Contudo, a missa de sétimo dia já foi marcada. Será na próxima quinta-feira, dezoito horas, na Igreja de Santa Inês, em Minas. E eu nem sabia que meu pai era cristão.



P.

Imagem: Pinterest