segunda-feira, 14 de julho de 2014

A possessão das palavras em A vendedora de fósforos de Adriana Lunardi






1. O diabo pela coleira

Um romance filosófico sobre literatura. Um romance híbrido em que se tocam se beijam e se esfregam duas bestas de olhos coloridos, mas da mesma boca preta. Dois dedos da mesma ferida. Ainda e antes, A vendedora de fósforos (Rocco, 2011) de Adriana Lunardi é um romance político, feminista, à clef; romance de aventura, amor, drama e suspense. E que, portanto, escapa a classificações comuns.

A dificuldade ou raridade de análises sobre o romance em questão advém, certamente, dessa força transmórfica, móvel, e alada que só sabe pousar em campos minados. Ora tudo explode e as chamas de silêncio atingem o céu. Ora nada acontece, senão alarmes de inquietude e perturbação. Aquela tensão tola e inevitável que a vida arma, como se segurássemos o diabo pela coleira.

A trama de Lunardi é um pescador matuto e sem sono e quase dispensa a isca. O leitor é fisgado no anzol seco. Na glabra do romance, a autora trata de uma família repleta de dor e estranhezas encasuladas no convite do silêncio e na sentença da mudez. Uma família trágica, comum, ladeada por distâncias amontoadas e um cotidiano sufocante.

Na derme, por sua vez, duas irmãs, principalmente, são escamadas e salgadas e expostas dando a ver os ocos, as entranhas e os miúdos de uma relação de pacto sem promessas. É o epicentro do romance. E temas subjacentes como identidade, pertencimento, loucura, crueldade e tempo são tratados com ritmo, atenção e desenvoltura de quem admite que reescreveu o quanto pode.


Há, certamente, muito mais para se dizer do que a questão literatura/filosofia. No entanto, é esse o ponto do livro que mais me agrada e que quero enfrentar sem ortodoxias. E afinal é também uma relação de irmãs o que existe entre literatura e filosofia. 

2. Dois pés esquerdos

A palavra escrita é o grande domínio de tudo, mas é também o que sobrepuja e arrebata a decisão e o desejo de escrever. Sem chance de escolhas, o escritor que escreve mata e não esconde que matou, que fez morrer. O escritor que não escreve, por saber-se um animago trevoso, escolhe morrer pelas próprias mãos.

Adriana se lança contra a ambivalência da escrita e o impacto deste corpo a corpo provoca certa luz, orgânica, matizada, e que invade os objetos de uma pesquisa profana tais quais a morte que nasce da escrita, a exclusão dos poetas da pólis, o verbo-princípio. A marginalidade da palavra pulsa rebeldade. 

Assim, pois, um romance filosófico sobre literatura significa que Adriana pensa com palavras. Significa que em A vendedora de fósforos há uma sigilosa alquimia na qual elementos do pensamento, gotas de argumentos, doses dialógicas, medidas e desmedidas de conceitos são misturadas com outros elementos da ficção como poções de personagens, desencantos narrativos e contrafeitiços da linguagem.  

Mas não é que Adriana faça filosofia pela boca de um personagem ou de mão dada com o fluxo de consciência desate nós investigativos sobre qualquer questão mais particular dos dois âmbitos citados. 

O romance é narrado por uma leitora voraz e por uma escritora destemida. São irmãs siamesas prontas para a separação. Exatamente por isso, e em função do tempo, a fome de livros se converte em gula de vida, no sentido flusseriano. Alimentar-se de medo faz da coragem azia, má-digestão. O estômago coloca para fora o ressentimento com violência. Mais agressivo é o vazio de-dentro. 

Porém, nada disso se distingue de forma binária. Não, o romance não sofre de um mal de oposição. Muito antes pelo contrário, o tempo inteiro o leitor acompanha dois pés esquerdos dançando a mesma serenata alheia. E pode ouvir ainda, sem confusão, a melodia pesada que Lunardi canta longe do descompasso prosa/prosa poética e que não passa de mera distorção em outros escritores contemporâneos.

Entre prosa e poesia, ela escolheu as duas e se deu bem.

A atmosfera que a autora conjura, e que por nada se desfaz, exige do leitor, até o último ponto final, uma postura, uma atenção, um posicionamento que impele não à epifania necessariamente, não à catarse somente, não à identificação (imediata ou não) ou à cumplicidade com os personagens ou com o enredo.

A atmosfera de Lunardi impele certamente à ética, ao encontro, à crítica, à reflexão e à sorte de quem se questiona, e se autoquestiona em relação ao redor, ao mundo, reconhecendo tal decisão como vital e inevitável, mas sobretudo como estranha. É certo que o estranho gera repulsa, horror, mas também gera fascínio e singularidades. Antes de tudo, o estranho gera! 

Nada mais literário.
Nada mais filosófico.

O que quer que nasça desse estranhamento será atravessado por um tempo não determinado. E virá depois, só depois, como resultado do difícil cálculo das palavras. É quando se enfrenta alguma conclusão. E que às vezes, na verdade, mais beira ao descomeço dos fatos graças ao flerte irresistível com o avesso de tudo. E então mais parece que a autora se empenha em resolver ideias e equacionar sentidos para finalmente construir um fim que, por sua vez, não vem.

Por isso os caminhos e as direções que se seguem, embora guardem em tudo o embate e o desespero de quando se desce um rio de pedras, não se afastam hora nenhuma da audácia e do mistério, da imodéstia e do sigilo. Um tsunami na biblioteca.



3. A possessão das palavras

Lunardi teve a coragem de escrever, antes de tudo, para aqueles que leem e em honra dos que leem! Escreveu para aqueles que amam livros! Para aqueles que vivem no mundo através dos livros! Escreveu a vingança dos que escrevem, sem brindes. 

E assim a autora erigiu um lugar, um abrigo a céu aberto, uma ágora, um Banquete no qual a escrita é bebida, é comida e é celebrada e dançamos descalços, nós leitores, ao redor de uma fogueira de desfrutes e alegrias panteístas que nos atingem, nos penetram, nos invadem porque a palavra é rapto, a palavra é roubo, é baião. A palavra é conquista e jazz. A palavra é tombo e rock: golpe de sabor e de suor.

A palavra é quando destino é desejo e caminho é chegada. A palavra é a possessão da perda.

Ora, se o orgasmo é a pequena morte, o livro é a morte sem tamanho. E ler é a única orgia, real orgia! Ler é o movimento amoral, passividade sem culpa e sem desmerecimento. O leitor é o abraço-de-Shiva, obscena-matilha, solidão-sem-sozinhez, caleidoscópio-de-prazer: múltiplos estados de gozo indecidível. 

É justo por isso que em momentos precisos, de linha feita para agulha, outros escritores, outros personagens e textos são invocados livro adentro criando uma sensação de febre calma e crescente. De novo, a autora se dispõe ao encontro e também o compartilha. E que delícia é reencontrar certos amigos, certos amores, certos amantes que reencontro ao ler – e reler – A vendedora de fósforos. É que a relação com os livros é liberta. 

E é simplesmente inevitável pensar em tantos outros autores, outros livros e personagens. Inevitável se pensar! Mas que intertextualidades, temos um chá para loucos com Andersen na cabeceira de uma longa mesa com todos os demais assentos ocupados, menos um. E mais que isso não posso contar.

Assim, o estrago está feito: Lunardi destrói um dos dogmas da literatura – jamais pensar no leitor ou em ninguém mais. Adriana pensa no leitor e pensa o leitor. Ela subverte medos e impossibilidades em visão e atrevimento.

Mas que leitor é esse?

A coragem de Lunardi está em criar senhas, códigos e lugares acessíveis apenas aos leitores acusados de serem leitores, acusados de difíceis, de sozinhos e solitários, de diferentes e de pensar demais.

Apenas os malditos leitores podem apreciar os ângulos oblíquos de miragens e fantasmagorias tal qual decifrar ofidioglossias e reticências e compreender por osmose aquilo que só o arrepio provocado por um livro transmite.

Apenas os malditos leitores riscam os fósforos da própria fogueira.  

Lunardi sabe disso, aposta nisso e trata o leitor de igual para igual.

Quanta generosidade.
Quanto risco. 

Em cada página de A vendedora de fósforos a sensação de tocaia se abriga e se alarga.

Por isso, é sem engano que afirmo que Adriana Lunardi escreveu um romance (também) de aventura, um on-the-road subversivo e desfigurado no qual ela fura todos os sinais vermelhos, corta a corda da ponte, sopra rastros e pegadas, pega longos atalhos – tudo na contramão.

Agora, é justo retomar uma ideia comumente atribuída a Liev Tolstói (1828-1910). Para o escritor russo, toda grande literatura conta ou a história de um homem que parte ou a de um forasteiro que chega. 

A vendedora de fósforos da conta de ambas grandezas principalmente por que nele absolutamente nenhuma palavra se justifica, jamais. A conquista de Adriana está em gozar um texto em que cada palavra não poderia nem por um segundo ser outra, quando na verdade sempre é.

Lunardi é a predadora natural do que é imprescindível e com as presas fundas no pescoço de alguma coisa ainda viva é que saboreia o sangue do que escreve e que já é indispensável.

Questões como vida e obra, manipular elipses, jogos de linguagem, alternância de ponto de vista, estilo multirreferente, fragmentação do texto e do tempo alimentam apenas quem gosta de migalha. Nesse sentido, afinal, o que cativa é o modo desobediente de tratar referências contemporâneas, discretamente absorvidas, e de derrotar a economia narrativa num cálculo sensual. E ter escolhido, entre prosa e poesia, as duas, como já foi dito.

Por fim, Adriana é herdeira do louco detalhe lygiano. Embora eu não sei se ela saiba ou concorde comigo. De Clarice, herdou o título de bruxa e o jeito docemente desaforado de às vezes apenas escrever. Poderia eu mesmo inventar mais laços e distribuir aqui o que não é meu para dar, mas não é preciso e nem posso dizer mais que isso.

As chamas já me devoram. 

P.
Adriana Lunardi


Adriana Lunardi é brasileira, catarinense, autora dos livros de contos As meninas da Torre Helsique (Mercado Aberto/PMPA, 1996) e Vésperas (Rocco, 2002), indicado ao prêmio Jabuti e publicado na França, Argentina, Portugal e Croácia. Eu li Vésperas e morro de ciúmes quando alguém diz que leu também. Adriana tem dois romances, Corpo estranho (Rocco, 2006) e o mais recente, sinto que não por muito tempo, é A vendedora de fósforos (Rocco, 2011), finalista do prêmio São Paulo de Literatura – 2012.

Uma observação: por compromisso pessoal, ressalto que quase a totalidade de críticas ou resenhas que li sobre A vendedora de fósforos de imediato afirmavam ser difícil escrever sobre o livro alegando, entre outras coisas, o inefável que o circunscreve ou a subjetividade intensa aliada ao enredo simples dragando complexidade. Como se houvesse novidade nisso. Algo recorrente na crítica que se dispensa aos livros escritos por mulheres, feita sumariamente por homens, é acusar tais livros de difíceis, de vagos, carentes de entendimento e depois lacrá-los com o selo do não-dito. Postura covarde.

Pois muito antes de ser difícil, é muito prazeroso escrever sobre os livros que as mulheres escrevem. E o presente artigo, que abordou apenas um ponto desse livro, prova que há muito a ser dito sobre o que escrevem as mulheres e há muito também que se aprender e se educar com elas.

Só mais uma coisa: os melhores escritores do momento, no Brasil, para mim, são mulheres. Adriana está certamente entre os cinco principais.

Imagens: A capa do livro eu peguei no Pinterest. A tira que vem em seguida é do Fábio Moon e Gabriel Bá. A foto da autora peguei no adrianalunardi.com.br