terça-feira, 3 de junho de 2014

O pequeno órfão



Modesta a morte, companheira,
nos consolando, quase da família.
A boa morte, Adélia Prado.


You bleed you learn
You learn, Alanis Morissette



Acho que vou desistir do adoçante
e voltar a pôr açúcar no café
enquanto é tempo.

Amargam demais alguns goles da vida.

A glicose desafia a gravidade achando
que doçura é metafísica. Tola demais.
A morte é o único anonimato que nos resta.
O sangue rebela-se.
O uivo e os latidos vazam grades e muros.
A hemorragia é o último estatuto da liberdade!

Primeiro, a notícia veio a cavalo:
― Atearam fogo na sua biblioteca!
Depois, numa carta de amor:
― Esqueça...
Por fim, alguém me ligou dizendo que o cachorro seria sacrificado.

Odeio essa palavra, sacrifício.
Odeio essa história de cruz.
Odeio gente que vê televisão
dia e noite e mais ainda quem vê filme
dublado com um prato de comida na mão.

O cachorrinho de Vanessa também morreu.
Logo com ela que já perdeu pai, mãe e até uma aposta em dinheiro?!

O cão é drástico.
E não sabe que vai morrer amanhã.
Eu sei. E o que posso fazer?

Alguma coisa em mim desce agora feito guilhotina.

O cão é drástico.
E não sabe que vai morrer hoje.
Eu sei e toda essa impotência que juntou no meu peito
durante à noite não se desfez igual sereno.
Grudou igual catarro.

Não falei nada com deus nenhum.
Não fiz prece ou oração dirigida a ninguém.
Quero só ver o que acontece.

Vi árvores e amizades morrerem
sem chance de dizer adeus.
De quantas mortes somos capazes?

É.
O cão morreu e eu fiquei assim...
Parece que ainda tenho minha vó, mas só em outro país.
Parece que ainda tenho minha mãe, mas não sei quem ela é.

Se for o caso, que me perdoem os que podem.
Senão, pouca diferença faz.
Mas hoje o órfão sou eu.


E minha esperança não para mais de sangrar. 


P. 

Imagem: Bleed de Alice X. Zhang inspirado em Chihiro (Sen to Chihiro no Kamikakushi, Hayao Miyazaki, 2001).