terça-feira, 29 de abril de 2014

O convite irrecusável: sobre Hoje eu quero voltar sozinho



Antes de mais nada, um filme sem vaidade. E ainda assim imodesto! Felizmente imodesto! eu digo e quase vou gritar pela janela Felizmente imodesto!

Hoje eu quero voltar sozinho (2014) é um filme repleto de entusiasmo, contágios, levezas, desesperos e doçuras, principalmente. Segundo Clarice Lispector, “só doçura é potência” – e essa é a sensação que permanece do começo ao fim do longa: de doçura e de potência.            

O cinema mais recente aborda a questão do olhar de modo incansável. Desde a máfia de O senhor dos anéis (2001), passando pelo O cheiro do ralo (2207) até Ensaio sobre a cegueira (2008) tem-se esses e tantos outros filmes que constroem o argumento central em torno do olho e/ou do olhar para então desfiarem suas histórias.

A sociedade atual – e tão desatualizada – segue com seu voyeurismo míope que, sobrecarregado de transmissões “ao vivo”, fake realitys, popularização do 3D, filtros, pins, gifs, séries e outros delírios visuais que implicam no triste conceito de homo videns, na falta de uma política da imagem e em mais estaticidade e menos movimento na vida.

Televisão, por exemplo, implica em imobilidade do corpo e da mente. Quanto mais televisão você vê, menos você pensa.

É por isso que, antes de mais nada, Hoje eu quero voltar sozinho é um filme sem vaidades! Porque foi elaborado dentro desse contexto da obrigatoriedade do meramente visível, da vulgaridade de capa, do fetiche do olho.

E no momento em que elege um cego como protagonista, zomba de toda cegueira da visão. É a diferença, o desigual que está em foco. E não aquilo ou aquele que todos desejam ser, na mesma medida, no mesmo molde. Neste caso específico, a diferença é dupla.  

É também Clarice Lispector que vai dizer, agora já em outro romance, que “ver é errar”. Antes dela, Schopenhauer foi categórico ao afirmar no seu Sobre a visão e as cores (2005) que “toda visão é intelectual, pois sem o intelecto jamais haveria visão, percepção ou apreensão de objetos”, isso porque, para Schopenhauer, visão é sempre visão de mundo, é conhecimento. O “ver é errar” de Lispector dirige-se justamente ao oposto de tal saber: dirige-se a quem vê apenas com os olhos, sem real visão. Sem ver com o coração, ou seja, sem ver com calor, força e vida.

A imodéstia – termo aprofundado por Nietzsche em Assim falou Zaratustra (2011) e que se refere a quem sempre exige mais de si mesmo – A imodéstia de Daniel Ribeiro está justo nessa junção: a capacidade de criar belas metáforas simples com sua visão de mundo a partir de tudo aquilo que somos, quando somos, e que sem razão abandonamos no pântano dos clichês.

A primeira prova disso está na coragem de escrever um roteiro negativo, que se inspira de forma contrária no curta Eu não quero voltar sozinho (2010).

Parece simples, é simples, mas implica em desconstruir o visível e construir o invisível. A entrelinha. Porque ver é errar.


Cada vez mais eu entendo o Daniel como um diretor de uma crueza oriental. Muito tem sido dito sobre sua delicadeza. Eu sinto que agora já se pode dizer da sua força.

A trajetória do curta para o longa, nota-se, de modo silente, que foi uma evolução. Não no sentido mais fácil, do que é natural. Mas para crescer não se pode evitar sacrifícios. 

A atmosfera de contos de fada presente no curta – sobretudo no desfecho de surpresa e esperança – agora cede lugar a vários momentos sem áurea, onde a vida é esquecimento e frustração. Não é por acaso que a personagem Giovana (Tess Amorim), admite que não espera mais o príncipe. E o sonhado primeiro beijo do Leonardo (Ghilherme Lobo), torna-se um afirmativo circunstancial.    

Pois então, se antes a mágica estava no improvável, no inesperado, no desconhecido, agora, no longa, a magia acontece na relação com o que se pode, com o que é pessoal, conhecido e está por perto.

Tanto é assim que a relação com o corpo – o corpo, e não necessariamente com o sexo – ganha um lugar próprio no filme. E realizar aquilo que é próprio é ser gênio da lâmpada de si mesmo: é realizar seus desejos impossíveis.

O corpo aqui é íntimo e, por isso, não há culpa ou constrangimento. Há gozo e humor! Celebra-se a pele, o contato, o arrepio, o abraço. O beijo.


E como é boa a distância dos extremos anestesiados que a indústria cultural pulveriza nas nossas sensações. A sinestesia de Hoje eu quero... é tão erógena como é porque valoriza mais o toque – e menos a pegada. Valoriza mais o olhar – e menos as selfies. Valoriza mais o subjetivo – e menos o objeto.

Do início ao fim, somos lembrados pela sedução que temos nas mãos, nas orelhas, nos pés, bocas, dedos, nuca, nos olhos. E temos o olfato, o tato, o paladar e a visão – literal e metaforicamente. Hoje eu quero voltar sozinho é uma convocação contra a anestesia letal e diária e um convite irrecusável à potência do corpo!

E é um corpo que, se bem notei, é molhado e também molha. É um corpo que aparece no sol, e reaparece na sombra gerando movimento, gerando pensamento, que é o maior desejo nesse claro-escuro, nesse dentro e fora.

A escolha da água, numa simbologia bachelardiana, vai desde o banho até o álcool, passeando pelo barbear até chegar à lágrima. É como diz Hilda Hilst: a vida é líquida!


Assim como Leo e Gabriel (Fabio Audi) eu também sou homossexual. Mas fiquei encantado e fui fisgado mesmo por tudo o que a Giovana conseguiu fazer com um simples par de meias brancas, com carrinhos.

A Giovana é toda a graça que é ser mulher! Quando ela é o assunto, é preciso parafrasear Adélia Prado: tudo o que não é homem está em ti, maravilha! Uma Lolita?! Não, por favor!... Giovana não precisou escapar dos artifícios broxantes da sedução que é ditada às mulheres. Ela sequer se deixou capturar!

Apaixonar-se por quem pode apenas e desde sempre te ver unicamente por dentro torna a mera nudez, por menor que seja, um desproposito absurdo.

Como é judiado aquele que só tem um corpo nu para mostrar...

Portanto, para a Giovana, cobrir-se é mais convidativo. Ela é uma odalisca às avessas. Isso é genial!

Sei que a criação dessa personagem foi pensada de modo vital para trama e para a narrativa. Mas ela nunca teve tanta cor. Honestamente, acho que a amizade e o amor entre ela e o Leonardo existe justamente porque a escuridão não é páreo para Giovana e seu olhar de mangá.

O que há entre eles dois vai além da questão do desejo. E também não é sexo, no sentido legítimo e, portanto, mais amplo.

Trata-se da atmosfera que ela provoca atrás dos olhos.

Iluminada, em termos de inspiração, ela está muito perto do que eu entendo como musa, pensando como um escritor. E quando digo musa, refiro-me ao pathos da alegria e não a uma mulher em túnicas de seda...


Tess Amorim conduz essa percepção, e várias outras, com uma atuação inventiva e decidida, mansa e eriçada, e que se firma numa espontaneidade que, às vezes, beira o rústico.

E como todos já apostavam muito no Fabio e no Ghilherme, a meu ver, a Tess roubou a cena. E como eu gostaria de ter amado em silêncio o meu melhor amigo. Sem falar nada. Sem dar ouvidos, entende?... Mas eu era desses que pensa que “a gente tem que falar as coisas que a gente sente. Não adianta deixar guardado”. Enfim...

Talvez, então, eu deva contar o que senti em relação aos meninos agora.

Mas antes devo dizer que gostei bastante de como os personagens secundários foram tratados. Isso também é importante.

A figura da avó foi um acréscimo e uma saída acertada e ágil.

Notei que o pai de Leonardo parece conhecê-lo inclusive no sentido da homossexualidade e isso é muito bom, pois funda uma nova conduta e enfraquece a homofobia masculina. A cena do banheiro é comovente.

No entanto, embora essa minha percepção seja desfeita ao final, achei perigoso, ainda que tão verossímil, o modo como a mãe do Leo aparece algumas vezes. A maternidade precisa ser coletiva e isso está lá. Contudo, é bem fácil confundir a noção de responsabilidade com uma superproteção que jamais é constatada, mas acusada. É preciso que se diga: é muito difícil ser mãe.

Além disso, não posso deixar de mencionar os colegas de classe do nosso trio! O personagem Fabio (Pedro Carvalho), carente até não poder mais, ao menos em um momento ultrapassa a barreira que ele mesmo constrói.

Esse é mais um ponto forte do filme: nada é uma coisa só. E ninguém é unilateral.   

E, sim, gostei bastante da dimensão reservada à Karina (Isabela Guasco). Embora seja a parte mais complicada de pensar, pessoalmente, pois também para mim a Karina é esse fantasma muito real que assombra justamente por não causar nem medo ou repulsa a quase ninguém.

Pois então, os meninos. Adoro meninos!




Quem não conta os minutos para ver aquela cara na porta pedir licença e perguntar “Aqui é o 211?” Ai, ai.

Fabio Audi é uma espécie de doce vampiro. Sim, um Macário que fez da tela a taverna na noite.

A atuação de Audi, até então, é simples e sem enfeites, marcada (literalmente, eu diria) por uma presença febril e gestos de um esgrima com um timbre de voz que brinda aos ouvidos com um Chardonnay. É essa voz que, emprestada ao Gabriel, vai fazer muito mais do que favores.

Talvez por isso, no longa, Gabriel é responsável pelo diálogo. Ou seja, é o personagem mais denso, inclusive, o único que já experimentou a morte. Gabriel cria oportunidades para que o diálogo aconteça – com ele e com os outros. E quando a oportunidade fracassa, ele simplesmente enfrenta o desconforto e a indiferença, e propõe a conversa. Cada pequeno gesto do ator em direção ao personagem é norteado por uma surpreendente oferta, uma generosidade marota e muito máscula. Contudo, e isso é o que mais me pega, o Gabriel é a contrapartida de um galã.   

Por sua vez, Ghilherme Lobo, ator que vem diretamente do clã Uchiha para nos emocionar com seu sharingan das sombras, é o ponto-de-fuga real do público.

É através da atuação do Ghilherme que a catarse de todo filme acontece – e o ator não decepciona. Todos podem se identificar mais com os outros personagens, ou não se identificar, mas é impossível ficar indiferente ao olhar desse ator – e nele, todo seu empenho. Ghilherme atinge a cegueira não apenas nos olhos, mas nas expressões que conseguiu domar, nos ombros pesados do mundo que carrega, nas mãos vazias de um pianista algemado, de um nômade sem pernas. O ritmo é a falta.

O ator primeiro, e só depois o personagem, que não-lança, mas que nos apanha com esse olhar distante, perdido, fixo numa queda indistinta, de onde em pleno desencontro, ele nos indaga: o que você não vê? para o que é que você olha? por quem você fecha os olhos? e o que te faz abri-los?

Mas sobretudo: por que é que você se faz de cego?


Nesse sentido da dúvida, a condição de Leonardo é a condição do filósofo: outro que está sempre no escuro. Não por acaso, o símbolo do colégio onde Leo, Gi e Gabriel estudam é uma coruja.

Esse personagem é como um leão sem dentes, que por isso perdeu um pouco da garra e da realeza, mas justamente por isso, ficou mais faminto e furioso. Ao final, mais dourado.

Hoje eu quero voltar sozinho é, inteiro, um grande deslocamento e se move com a intenção de sensibilizar nossas atenções mais primitivas e mais honestas. Por isso, o filme é um acalanto e uma vitória.

Agradeço, de verdade, ao Daniel Ribeiro, que desde Café com leite (2008) não desiste desse voo que espalha pólen a quem sabe ser flor.



Obrigado, Daniel.
P.