sábado, 22 de março de 2014

A Professora Margot


Para V.

Cada vez que chove, como agora, renova-se em mim esta sensação, com mais ou menos força, jamais fraca, de que algo bom e adormecido finalmente será desperto quando a chuva passar.

Os relâmpagos doem como portas que batem dentro de casa. A luz assombra feito um jovem pesadelo. Virgens.

A chuva é meu primeiro gozo, desde então. Cada estrondo me molha com um prazer feroz e iluminado: só sei gemer igual trovão.

Dois gatos cinzentos aparecem no meio da tempestade separados pela distância de um rosto.

Os brincos da Professora Margot miam raramente, entre bocejos próprios. No mais, dormem flutuando entre ombro e lóbulo enquanto ela nos explica a questão da técnica (gestell), evidenciando a mimese (darstellung/herstellung), investigando o modo ritual da autocrítica filosófica (matizada historicamente de um orgulho mais de taça que de vinho) em relação à arte, considerando o impensado do autor.

Rapidamente, a chuva engrossa dentro da sala de aula. Ao menos para mim.

E como enfraquece a doença, a miséria, o desumano do mundo aquele Professor que começa a aula assim: com alegria! E chuva é alegria! Alegria é chão arado e é arejo: é onde o humus, ou seja, onde os resíduos trágicos devem ser lançados para que algo então floresça, para que algo frutifique.

Sem qualquer sinal de cerimônia  o gesto aqui é pagão  a Professora solta fios, vibra pontas, abre asas na vagaresa da lonjura, na peleja sem o norte.

Ouro torrado nos cabelos trançados a fios de nuvens. A pele salpicada de tempo. A professora avisa, Direi brutalmente! e então semeia chaves nos buracos cavados em fechaduras, de onde irrompe a festividade de toda revolta que é o pensamento!

A Professora Margot não se envergonha de saber e nem se embaraça quando precisa saber ainda mais (magister dixit). Entre esses dois lugares, passeia um Eu não sei, me ajudem a pensar. É hora de contemplar (bios theoretikos), no quintal da morte, ao silêncio e à solidão  essas duas grandes caixas de lego.

Enquanto eu anoto frases e desenho com lápis de escrever, o súbito ocorre! Observo, então, a Professora agir em um esforço bruto, cinzel na pedra, para proteger a sala de aula. Em duelo contra o mero espaço, usando o Não como florete, ela vence o embate imposto e finca a bandeira negra no centro da ágora, Vamos continuar a aula! Vamos queimar dinheiro!  

E em instantes, depois de tanto esclarecer, e questionar, ela derrama, sobre os horizontes que ali circundam, a surpresa com o próprio pensamento que assim lhe surge. Percebo que, em segredo, ela está feliz. É que acaba lançar, involuntariamente, o despreparo enquanto categoria filosófica. Coragem que, até então, eu presenciei apenas duas outras vezes, em dois outros mestres (ambas mulheres).

As lentes que sustenta sobre a face corada – um acúmulo de pequenos rubores: a professora é tímida! – não são tão transparentes quanto tudo o que ela diz (aquele vento no rosto que bagunça os cabelos), mas merecem atenção tanto quanto a armação de mel que as sustenta – uma encomenda sob medida feita às abelhas!

E são os óculos que me fazem considerar o voo e as asas, a sonoridade, a atração pela doçura e também o labor, as picadas e alguma morte que sua filosofia poliniza.

A expressão da professora Margot, seus ombros e seus sorrisos revelam velhas questões para outro novo espanto, o breve entendimento que rola para longe, feito fruta do pé.

O corpo de um professor não para. Trata-se de um corpo heróico. Ela consegue concluir o argumento apenas quando mostra a todos os estudantes que está podre, porém já na gamela, a conclusão provisória de toda uma safra. Não é agora que vai descansar. Mas resta a sombra...

Sem recuar e sem jamais negar o medo ante as medonhas ignorâncias (a estética do feio) que, justo ao final, começam a saquear os argumentos, ela pondera. Estão sedentas por respostas de pouca carne, mas a Professora Margot confirma que a coragem está em alimentar-se com perguntas.

Observo então o pescoço-de-girafa que ela usa estirado no peito. Já não anoto nada há algum tempo, mas não parei de desenhar. Mas agora abandono o lápis como a um instante. Todos em silêncio. Pensei em como é complexo construir um fim enquanto a Professora Margot vasculhava as próprias dúvidas. Acho que todos concordam que agora é um bom momento para quem sabe um café. Foi quando a chuva simplesmente parou. Os estudantes foram saindo da classe num movimento que me lembrou à maiêutica. A Professora fechou um livro e abriu um outro. O sol já brilhava lá fora. Mas não por muito tempo.   

P.
Imagem: peguei no Pinterest uma cena do longa O mágico (L’illusionniste, Chomet, 2010, 80 min. Roteiro original: Jacques Tati. Drama/Animação, França).