sábado, 1 de fevereiro de 2014

A quase morte de uma vida (sobre Rose, a doméstica do Brasil)


1. O medo do sucesso ou Rose no teatro





Antes de pensar propriamente o Espetáculo Rose, a doméstica do Brasil , preciso confessar meu medo em relação à peça e minha fé também.

Existem duas Roses. A Rose que é web hit e que canta versões de super pop internacional e a Rose do teatro.

Eu temia a primeira, confesso. Pensei, no caminho para o teatro, que o argumento da peça seria sustentado pelo riso fácil, pela paródia, somente, ou pelo mero aproveitamento daquilo que é musicalmente imposto pela indústria cultural e invertido melodicamente em um instantâneo midiático.

O alcance de Rose na internet, em termos de recepção, cria, a partir da caricatura (ainda que no melhor sentido do termo), uma relação que dispensa a crítica intrínseca à personagem.

Então, por mais que Rose seja uma personagem que delata o que ainda é fato social no Brasil, o meu medo era de a peça limitar-se ao que apenas gera riso.

Não tenho nada contra a alegria, a felicidade ou frenesi. Nem contra a histeria.

Contudo, a alegria não precisa ser acrítica para ser intensa e contagiante, e é assim, na base do riso mais raso e frouxo, sem prestar a menor atenção na dor que move tais sensações, que muitos entendem Rose.

E justo porque a dor está presente em clips hilários como Grelo e Telefone, mas de fato, não é o foco da questão.

A Rose do teatro é diferente. A parte diva da empregada é um detalhe que contempla o texto e a atuação muito mais do que os completa. Eu dei muitas risadas durante todo o espetáculo e pude viver uma alegria coletiva que sempre me foi muito rara. Mas eu também pensei bastante, fiquei intrigado e chorei! Como chorei! E eu tinha medo que não fosse assim.

Então, antes de começar o espetáculo, eu rezei. E me lembrei de momentos que compartilhei com o ator, Lindsay Paulino, do começo ao fim da adolescência. Éramos amigos. Porém, lá se vão uns dez anos desde a última vez que conversamos. Eu senti meu coração pender. Mas eu tinha fé, mesmo assim, e agora não apenas na arte, mas em Lindsay também.


2. Rose, a doméstica do Brasil




A peça em questão é a história de uma vida inteira colocada em um único dia. Isso implica, necessariamente, em termos de enredo, roteiro e narrativa, que a personagem tem mais limites que possibilidades.

Contudo, qualquer artista sabe que todo mundo tem sempre e apenas um único dia por vez. E em um único dia se vive. E em um único dia se morre.

Nesse sentido, posso dizer que Lindsay, que escreveu o texto da peça e que pariu a ideia original e a personagem, se aproxima e flerta com autores que, ao longo de toda uma obra, contam também a história de um só dia.

Foi assim com Clarice Lispector, com Guimarães Rosa e Hilda Hilst, e é assim com Adélia Prado e Lygia Fagundes Telles apenas para citar.

E cito autores de literatura porque o trabalho da escrita superexige de quem se arrisca a escrever, seja roteiro, seja ensaio, seja ficção.

Fiquei muito feliz com o texto de Lindsay. Ele é afinado, mas não descarta o improviso. É real, mas inventivo. É enxuto, mas também é fresco. E o melhor, particularmente, é que o texto cria vazão para o silêncio. Ah, o silêncio...  

Assim, a atuação de Lindsay, sempre contagiante, é potencializada pelo texto. Não no sentido mais óbvio, como talvez pareça, em que o ator se deixa guiar pelo que ordena a palavra, certa e confiante. Nada disso.

Na atuação de Lindsay, o texto some.

Em retrospectiva, analisando como faço agora, claro, é possível separar um elemento do outro.

Mas durante o espetáculo é incrível e muito bonito de ver a simbiose e a amálgama que Lindsay consegue criar com o texto e com a personagem, o modo como o ator sustenta tal união por mais de uma hora e como é generoso em compartilhar essa unidade impar com o público, sem gestos previsíveis.

A direção da peça, de Adriana Soares, pode ser notada no tempo (refiro-me à dinâmica), no uso dos planos, nos artifícios cênicos e no manejo corpóreo.

A produção e o cenário são pontos fortes de interação para uma personagem exilada, afinal, Rose, como a maioria dos brasileiros, vive o limite da interioridade. À margem do mundo, ela tem apenas a própria casa, o próprio corpo.

E é a partir disso, do corpo, que a performance de doméstica subverte a performance de diva pop. Ambos não passam de um trabalho sujo, mas alguém tem que fazer.

Se não me engano, Lindsay canta quatro versões e a canção do número de abertura, de Corine Bailey Rae. E cada uma das canções tem a exata dimensão de um brinde.

Em nenhum momento o ator usa de tal artificio como muleta ou desculpa ou sequer como fôlego. O mesmo vale para a peça em linhas gerais.
  
O que é mais forte, intenso e inegável é o modo corajoso e quase descarado com que Lindsay, intimamente, elabora em teatro o relato de uma vida sertaneja, um vida miserável, um vida zoé, uma vida que é de quase morte e que sobrevive sem explicação.    

Os outros pontos que mais me comovem na peça são o ressentimento, a fé sem saída, a política gay e, evidente, a vida no sertão das Gerais. E é sobre tais pontos que falo no próximo texto.


P.