quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Ego caleidoscópico: a melodia sinistra de Sofia Coppola em The Bling Ring

Escrevi um artigo (no prelo) sobre o filme mais recente de Sofia Coppola, The Bling Ring (2013), e resolvi publicar parte do texto aqui. 


Sometimes I don't recognize my own face
I look inside my eyes and find disgrace
My little white lies tell a story
I see it all it has no glory
Look at me, Geri Halliwell

1 1.     Tema versus Tempo: o universo do inútil

The Bling Ring (Coppola, 2013, 95min, EUA, Diamond Films), de Sofia Coppola, é desses filmes que são deliberadamente construídos em cima de um roteiro delicado, posto que cravado em conflitos e agonias imediatas e delatoras, dedurando em detalhes o instante-já de quem vive no mundo de hoje.
Isso faz com que posturas utilitaristas se construam em torno desse longa-metragem. O que o torna ainda mais interessante, afinal, o filme pode acabar irreconhecível, mesmo quando visto. Ou seja, é preciso despertar as soníferas vistas e a visão de mundo bocejante diante do longa em questão.

A indiferença é feroz e se afasta rápido daquilo que nos define, mas que é terrível, ou obsceno, ou seja, que deve ficar fora de cena, que não deve ser dito ou mostrado, como a futilidade, a histeria, a carência e os excessos – pontos importantes de Bling Ring.
É como se o fracasso mais débil, a miséria mais ridícula ou o vazio mais imbecil não nos dissessem respeito. Como se a arte, e nesse caso específico, como se o cinema não fosse também o lugar de exibir, cuidar e dialogar sobre tais de cores da contemporaneidade.

Ou o pior de tudo, como se jamais perdêssemos tempo com bobagens de todos os tamanhos e de todas as intensidades, como se a morte não viesse amanhã e estivéssemos sempre muito ocupados em decidir o destino do universo...

2 2.     O cinema negativo ou Mística às avessas

Sofia Coppola é uma cineasta transmórfica – o que implica dizer que pode mudar de forma por completo como pode também mudar apenas a cor dos olhos ou somente a própria voz. Pequenas nuances e mínimas diferenças que provocam grandes estragos até na mais atenta das percepções. Tal qual a personagem Mística do universo Marvel, Sofia tem o dom de transmutar-se.
Porém, a analogia cessa no momento em que Mística controla a falsa aparência humana e Sofia, ao contrário, não controla, mas inevitavelmente mostra o humano real e inaparente. Mística aproxima-se tanto quanto possível da forma que imita, uma copia imperceptível, tão exata quanto traiçoeira.
Sofia, por sua vez, é uma cineasta negativa, ou seja, ao mudar de forma ela busca o verossímil pela distância, que pode ser de um passo apenas, como pode ser de uma lonjura sem medida exata.
E essa postura, esse dom, é que provoca todo sentido palpável tanto na trilha sonora e no All Star que aparecem em Maria Antonieta (2006) quanto nas situações limites do simples diluído da distância da desconstrução de um único tipo, que por ser humano, é necessariamente múltiplo, e que estrutura e compõe Encontros e Desencontros (2003).

Bling Ring é o quinto filme de Sofia e aqui no Brasil carrega a gangue de hollywood como subtítulo que não diz absolutamente nada, apenas da vazão ao óbvio acovardado, sem sequer aproveitar a ironia que poderia implicar. Bling é uma onomatopeia para o som de joias que se chocam e Ring é anel.
Os filmes que citei (Maria Antonieta e Encontros e Desencontros) são mais fáceis de aproximar, para quem tem essa mania comparativa e caduca. Por sua vez, Bling Ring está um pouco mais distante dos filmes anteriores.

Sofia Coppola


1 3.     O anel que tu me destes ou Ego-caleidoscópio

A ausência do drama clássico em um filme com adolescente – e não para adolescentes, é bom frisar! – é ponto extra para Sofia. São jovens em cena, mas a questão não é limitada a pouca idade deles. Até porque os adolescentes agora são outros!
Entretanto, na Ilustrada (Folha de S. Paulo) de 11 de agosto de 2013, cuja capa estampa Bling Ring, o psicanalista Jorge Forbes conclui (para não dizer diagnostica) que o filme é um “fastio adolescente”. Segundo Forbes, o adolescente sente tédio “porque não tem coragem de apostar no que realmente importa para ele”.
Coragem é o que menos falta entre os jovens do filme e a adrenalina corre solta a cada movimento. Há muito mais em questão que hormônios e imaturidade.
Há um coração de carne que foi aos poucos envidrecendo como uma tela de cristal líquido e em algum ponto acabou trincado.

A tela – do computador, da tv ou do tablete – é o lar doce lar desse jovem cujo contato precoce com a realidade virtual alterou o modo de ver e também o modo de ser notado. Agora, resta um ego caleidoscópico, múltiplo, frágil, vertiginoso e super dependente do mero olhar.

Sofia cria um suspense de documentário fictício que evidencia não apenas a historia real que motiva o filme, mas também registra a condição ca-ótica  desses jovens e a relação doente que se estabelece entre eles e a mídia – essa palavra vulgar e mentirosa que é o plural dos meios de comunicação de massa e que eu não uso mais. Por quê?

Porque assim eu sei que não se perde, atrás de uma palavra latina, todo o conteúdo que há ali nesse termo que parece correto, parece erudito, quando, na verdade, esse coletivo, esse vulgo, apaga justamente o caráter problemático que precisa ser discutido, como faz Sofia em seu Bling Ring.

Tanto que, para mim, o que mais dói no longa é perceber o homo videos presente em cada um dos jovens, o que significa a prática torpe e prematura da interação virtual com dinheiro, consumo (de coisas e pessoas), celebridades, drogas, fama, sucesso.

A invasão de privacidade e a evasão de privacidade, tão presentes no virtual, alcançam seu ápice com o factual, o literal, com a realidade. E assim, antes, as casas são invadidas, e depois, busca-se a evasão como nova moradia.
Troca-se o desejo do olhar pelo lugar mórbido da vitrine.
Exposição é o mais novo valor que deve ser alcançado, como o concurso público, o carro, o status coisificado em novos apps.
Expor-se é o novo preto. O anonimato, agora, é para losers.

2 4.     A crítica da crítica

Na distância e em negação, como já disse, Sofia abre mão dos elementos mais comuns e legítimos nos filmes que fazem uma crítica ao vazio contemporâneo, a começar pelo abandono de um único gênero ao longo de todo filme. Há um deslocamento atípico (não que seja original) entre personagens centrais e secundários e personagens que sequer são personagens de fato, como Lindsay Lohan, que não está no filme, mas aparece em tempo integral. É esse mesmo movimento que gera uma dissimulação salpicada no longa, que em tempos hiperimagéticos não esquece dos espelhos, das câmeras de androids, das filmagens amadoras, das redes sociais e, por fim, das câmeras de segurança, dos meios de comunicação de massa e dos programas sensacionalistas – aparecer é a questão!
O que mais li sobre o filme é que ele é ruim porque nada acontece”, porque “ninguém explica nada”, e “só mostra as invasões acontecendo”.

É mentira. Muita coisa acontece, mas sempre em uma medida mansamente perigosa e sem alarde, porque é assim a vida de quem é alienado e vil sem ao menos saber.
Contudo, ao contrário do que Sofia fez anteriormente, não há viagens psicológicas de quem quer entender de forma densa o que acontece na tela, mergulhando com o personagem posto em cena. Muito embora exista interesse real da jornalista Nancy Jo Sales nos jovens e isso também apareça no filme.

Mas o que vigora, e que definitivamente me agrada mais, é a crítica, o sarro, o sarcasmo com as figuras do filme. Em vários momentos a denúncia de Sofia soa como uma torta na cara de quem tem como meta a sociedade do espetáculo; em outros, as tais celebridades aparecem, digamos, com um nariz de palhaço no rosto. Ou com algemas, literalmente.

Depois, Sofia quase humilha os viciados nas drogas da indústria cultural, mostrando como os adeptos da autoajuda são seres carentes e autodepreciativos e como nas redes sociais não existe qualquer diálogo em prática, apenas o discurso de mil imagens que não valem mais que uma só palavra.
O flerte que a cineasta sustenta com a reconstrução dos fatos, vale pela subversão, mas não se satisfaz com isso, e revela e convoca, sim, à discussão sobre banalidades e a partir do resultado da imposição de valores midiáticos aliados à insatisfação contínua do capital e à manutenção impossível de uma vida que em nada é celebrada, porém, é intencionalmente confundida como “célebre”.

Ainda que não seja o melhor, trata-se do filme mais crítico e irônico de Sofia até então, e justamente por isso é o menos aparente.
Porque, afinal, é contra esse aparente, contra a vulgaridade estética e a ditadura da imagem que Sofia Coppola canta a beleza estranha da distância e da negação com sua dura voz, melódica e sinistra.


Israel Broussard e Emma Watson em cena do filme

P.