sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

A aperformance do erro (sobre o preconceito com o saber reflexivo)


Please be philosophical 
Princes FamiliarAlanis Morissette

I’ve been doing research for years
Eight easy stepsAlanis Morissette 

I was afraid you'd hit me if I'd spoken up
Sympathetic Character, Alanis Morissette

No fundamental excuse for the granted I'm taken for
’Cause it's easy not to…
’So much easier not to…
Wake up, Alanis Morissette

1. A inversão em dois conceitos ou A teoria em prática

Todo saber implica em uma ação. E tal qual órgãos e sentimentos, o saber é algo que você abriga, alimenta e cuida – ou destrói.

1.1

O saber técnico age sob quem o abriga.
O saber especializado age ao redor de quem o abriga.
O saber artístico aciona quem o abriga.
O saber filosófico é a antiação de quem o abriga.

1.2

É assim que se faz necessário distinguir saber e sabedoria.

A sabedoria age em si mesma.
O saber age no mundo.

1.3

O saber é uma categoria do intelecto, dirige-se ao conhecimento e lida com certos fatores tais quais:

Dúvida
Desconfiança
Distância
Mudança.

A sabedoria é uma categoria moral, dirige-se a percepção e lida com certos fatores tais quais:

Parcimônia
Certeza
Limite
Permanência

1.4

O saber é movimento e cria direções. Ao saber interessa saber e não-saber, dois elementos que não se apresentam naturalmente. É preciso desvelá-los verticalmente, em dessublimação.
 
A sabedoria é gesto e gera aprendizado. À sabedoria interessa o alcance e a constatação, duas possibilidades naturais ao homem que são assimiladas de modo horizontal e ascendente.

1.5

A sabedoria se entende com as raízes, assim como os mortos.
O saber se entende com as copas, assim como os garotos.

1.6

O saber nega. A sabedoria discorda.
O saber é negativo. A sabedoria é positiva.

1.7

O saber, em favor do conhecimento, desola-se.
A sabedoria, em favor do aprender, isola-se.
O saber lida com questões.
A sabedoria lida com perguntas.

1.8

O saber e a sabedoria, contudo, não são categorias opostas. São categorias inversas. 

1.9

São sinônimos de conhecimento:
Ciência
Noção
Dados

São sinônimos de sabedoria:
Astúcia
Manha
Cautela

Lisa Simpson é um bom exemplo de contrapartida do senso comum 

2. A consciência intelectual versus o Morto-vivo

Em A gaia ciência (2001) o filósofo Friedrich Nietzsche apresenta alguns aforismas sobre a visão de mundo que é construída por quem conquista diariamente o pensamento reflexivo, que ele chama de consciência intelectual.

Para Nietzsche, “a grande maioria das pessoas não tem consciência intelectual” e, se alguém exige tal consciência, “acha-se tão só como no deserto”.

O que se vive, e não é de hoje, é uma existência voltada para “o não interrogar”. Aqueles que possuem pouca vida interior, tornaram “o gosto da interrogação” em um sabor amargo.

Procura-se, desde então, a resposta, a grande resposta pronta e acabada. E é justo a ausência de relação com a força que vem do questionar que gera a promiscuidade com a morte do interesse e que mantém e multiplica um rebanho de necrófilos que insiste em perguntar pela morte do livro a cada velha novidade, como um tablete, e que acompanha séries como The walking dead.

Afinal, qualquer resposta serve. Não por acaso, sobre quem prefere as respostas, Nietzsche avisa que “ao invés de se divertirem com quem interroga, na verdade, o odeiam”.

Para esses, todo pensar será castigado.

Ainda em A gaia ciência, Nietzsche nos propõe que “a consciência é tiranizada”, ou seja, sofre uma opressão justamente por parte de quem se diz consciente, a saber, quem orgulha-se de uma consciência que tão somente existe, como um galho existe, como uma galinha existe, como um morto existe.

Trata-se de uma consciência de corpo presente. E que, ao fim das contas, defende uma opinião que se sustenta na força de um ponto de vista vesgo, posto que impregnado de apego e soberba.

Friedrich Nietzsche, filósofo (1844-1900), desenho de Fabio S. Goulart

3. Contradição e aperformace ǀ Senso comum e erro

A soberba da consciência, portanto, é o que gera a má consciência. E a má consciência está na incapacidade de se assumir como alguém que não sabe. Ou, ainda, na incapacidade de se assumir como alguém que quer saber mais, porém, sem buscas, sem trocas, sem esforço. Nascer sabendo parece ser o ideal.

Nesse sentido, torna-se evidente que o diálogo em nada interessa. E por isso que se constata um número sem fim de práticas discursivas que em nada são dialógicas.

E diálogo é pensamento + ação. Isso significa que é uma categoria prática que exclui necessariamente a falácia de que a teoria não acontece de fato.  

Quem não sabe repete o tempo todo que uma coisa é a teoria e outra coisa é a prática. Trata-se de alguém que vive a mera retórica...

Pois, sem o diálogo, ao se deparar com as direções do conhecimento, com os caminhos que levam a pontos diversos, com prismas distintos, logo se desiste. Quer-se, de novo e outra vez, os velhos pontos binários e obrigatoriamente opostos. Nada mais fácil e pronto.

Assim, fica como algoz quem não desistir.

Saber nunca é fácil. É sempre uma disposição intensa, uma conquista permeada de exigências. No entanto, só mesmo uma pessoa muito vulgar para crer que o que é fácil e pronto, dentro desse contexto, sempre satisfaz.

E mais: que é sempre mais interessante e mais honesto o que é fácil e pronto.

Contudo, o senso comum adora repetir que “Se fosse fácil, não teria a menor graça...”. Ou ainda: “se vem fácil, vai fácil”.

Eis a contradição do conteúdo e o erro aperformático do senso comum!


Na série The Big Bang Theory os personagens Sheldon (Jim Parsons) e Penny (Kaley Cuoco) são os extremos da reflexividade e da retórica, respectivamente

4. O comodismo imanente ou O nômade sem pernas

Volto a Nietzsche. Ao pensar e elaborar um embate entre pensar de modo reflexivo e o mero pensar, Nietzsche conclui que muitos

tomam a consciência por uma firme grandeza dada! Negam seu crescimento, suas intermitências! Veem-na como “unidade do organismo”! – essa ridícula superestimação e má-compressão da consciência tem por corolário a grande vantagem de que assim foi impedido o seu desenvolvimento muito rápido. Por acreditarem já ter a consciência, os homens não se empenharam em adquiri-la – e ainda hoje não é diferente! A tarefa de incorporar o saber e torná-lo instintivo é ainda inteiramente nova, apenas começa a despontar para o olho humano, dificilmente perceptível – uma tarefa vista apenas por aqueles que entenderam que até hoje foram incorporados somente os nossos erros, e que toda nossa consciência diz respeito a erros.

Pela razão, faço questão de destacar o seguinte trecho, Por acreditarem já ter a consciência, os homens não se empenharam em adquiri-la – e ainda hoje não é diferente!


A filósofa Marcia Tiburi defende a ideia de uma filosofia em comum, ou seja, um pensamento reflexivo que é feito em diálogo aberto. Para Tiburi, o pensar é também "uma criação coletiva, que se faz junto com o outro"

 5. Identidade e máscaras ou Onde está a mão direita?

A consciência intelectual, e portanto filosófica, implica, para além da base, em colocar o saber e o conhecimento do qual a espécie humana é capaz de elaborar e compartilhar, modificar e frutificar como uma das principais razões de se desejar um Bom dia, ao invés de se dizer um Bom dia. É diferente.

E é a diferença do saber, a diferença entre quem sabe e quem não sabe, que pode transformar uma realidade pessoal, uma experiência particular ou coletiva e mesmo o mundo atual.

Quem pouco ou nada sabe, terá sempre coragem de se dizer sabido. Ou de figurar-se como um sábio por ter “experiência de vida”.

Mas jamais poderá dizer-se filósofo! Por quê?!
Por que o filósofo, inclusive, não sabe!

É por isso que, não raro, o filósofo é tão ironizado, tão judiado, tão ignorado, tão detestado.

O filósofo não é o ancião sábio da floresta. O filósofo não é aquele que sabe na medida em que o tempo passa. O filósofo não é quem aprende com erros e acertos, vitórias e derrotas, ganhos e perdas.

O filósofo é aquele que germina luz a partir da própria ignorância e aceita o trânsito do silêncio que determinada questão lhe impõe pelos meandros do mundo de-dentro e de tal lugar retorna, momentaneamente, oferecendo a quem quiser a mão esquerda, com a parte clara da luz.

Para o filósofo, a resposta é uma das tantas estrelas que formam a constelação do conhecimento. E todas importam. 

Velma Dinkley é uma cientista a serviço do perigo e no desenho Scooby-Doo é chamada de "o cérebro" da equipe

6. Formiga versus Cigarra

Mas a consciência intelectual implica também, na base, em não pensar de qualquer jeito!

Implica em ser responsável pela minha linguagem, em querer a densidade das ideias e não ter mais preguiça-de-olhar e ver as coisas apenas superficialmente.

É, sim, não repetir os clichês dados ou impostos! É, sim, envolver-se com a desconstrução social e exercitar a alteridade e questionar a mera imposição de culpa cultural e de uma moral fálica e falida.

É parar de achar que o seu vocabulário não é pobre, nunca, mas que os livros é que são complicados demais, sempre.

O vazio do pensamento reflexivo, ou seja, o mero pensar, a certeza lustrosa do senso comum, o julgamento abrupto que vem dos credos, o apego nocivo à automação do raciocínio e à opinião, ou seja, a má consciência – o que domina o discurso vigente.

O capitalismo adora quem tem “opinião própria”. E, comumente, quem tem “opinião própria” adora o capitalismo. Adora mesmo, religiosamente. Porque eis o auge do capital, a fé no dinheiro.

Assim, o pensamento vazio impossibilita a mudança porque é incapaz de diálogo. E é incapaz de diálogo porque não se caracteriza, em sua grande parte, de ausência de pensamento, mas, sim, do mero acúmulo de pensamentos prontos, de ideias copiadas e repetidas, de desejos que não são seus.


É tal acúmulo que faz do que se chama “maioria” um mero serviçal, uma formiga em fila indiana que sabe apenas repetir e empilhar e que se perde louca quando ergue a cabeça e enxerga com ódio o ócio da cigarra – que, não por acaso, canta! 

P.