segunda-feira, 28 de outubro de 2013

no café do teatro (sobre o contorno dos silêncios)

Há uma maçonaria do silêncio que consiste em não falar dele e adorá-lo sem palavras.
Clarice


Os lábios de vulcão ardiam na ponta estreita da espinha dura que não parava de crescer no meio do meu peito. Uma dor quase desinteressada espinhava meus sentidos. Uma dor quase elegante que fere por questão de caráter. Nada pessoal. Sem saber disto, no Café do teatro, com dois expressos à espera, minha amiga disse:





A minha vida é essa agora. Então claro que eu queria mais aventura, sim, eu poderia dizer que sim. Eu quero mais aventura em minha vida. Mas nós nunca estamos satisfeitos com tudo estamos? Eu acho que não. Eu acho que não. Eu sempre estou gripada de um jeito ou de outro ou então com alguma alergia ou com uma faringite alérgica ou sinusite. Agora mesmo estou tomando este antibiótico então para que beber, afinal? Você me entende? Fico pensando. Porque minha vida já foi tão diferente e eu às vezes sinto que era outra coisa também o que eu queria mas honestamente não será injusto comigo mesma desejar ter apenas o que eu um dia pensei ou um dia quis para mim? Honestamente. E assim... eu vejo as outras pessoas, eu consigo ver sabe?... Mas é estranho. Não sinto falta de nada ou de ninguém exatamente e eu sei o que eu sinto. Tenho decência. Estou falando de outra coisa aqui. Essa coisa de realização é datada, com barra de números, coisa testada. Eu fico angustiada por que eu fico angustiada. O que for além disso é além disso. Se você me perguntar se eu gostaria eu vou dizer que sim, claro que eu gostaria ou de sair mais e beber mais e me divertir muito mais e ver mais meus amigos e chegar em casa em outros horários sem seguir tanto a risca nada e sem fazer do sol um despertador e a lua um toque de recolher sinistro... exagerei eu sei. Tem que rir. Mas eu gostaria, claro, de passar o dia inteiro lendo os livros que faz é tempo que compro e coloco na estante um depois do outro ou pensar em fazer um livro on line ou uma série on line ou um folhetim on line ou algo como você mesmo faz e que tem um motivo em si mesmo acho mara acho foda acho lindo criar algo que quase não precisa do criador mas enfim eu gostaria de viajar conhecer Florianópolis voltar a Ouro Preto tanta coisa. Você já passou carnaval em Recife? ou sei lá ter meta e juntar dinheiro para ficar uma semana em Paris Londres qualquer lugar assim Amsterdam alguma coisa nova ou diferente e longe entendeu? Longe. Então se você me perguntar eu diria que sim. Eu realmente gostaria. Mas agora amigo sem querer diminuir nada sem querer desfazer de ninguém mas agora eu tenho uma casa tenho um cachorro tenho marido e filho e aluguel ainda e ontem mesmo na verdade hoje mesmo quando olhei para a estante e vi meus livros e fiquei lendo as lombadas e pensando em tudo o que eu podia escrever eu acabei vendo as paredes da casa também e notei o quanto estão velhas, desbotadas e acabei vendo o sofá também que eu quero muito trocar o estofo quero colocar um roxo sabe? Com alguma textura. Você acha que veludo é talvez pegar pesado demais? Ler ou pintar as paredes? Os dois não dá. Não dá. Então hoje em dia a minha vida é bem assim, sabe? E já melhorou bastante. Se você me perguntar de quando eu me mudei pra cá e de hoje, precisamente, o que melhorou? então eu vou te dizer que muita coisa melhorou. Muita coisa mesmo! melhorou muito! Antes por exemplo eu tinha que sair de casa e voltar quase meia noite todo dia. Todo dia! Hoje eu consigo montar meu horário e ficar pelo menos três dias em casa, trabalhando em casa, e isso eu consigo porque sozinha eu conquistei meu próprio espaço aquela coisa toda então talvez de algum modo o que eu desejo agora de novo e outra vez é mais espaço entende? Uma casa maior com um quintal e com mangueiras e sombras. Uma sala com mais de quatro passos. Um quarto com mais de quatro passos. Uma cozinha com mais de quatro passos. Uma vida com mais de quatro passos. Pode rir. Mas é esse meu jeito agora de fazer poesia. Uma janela. Uma janela com mais de um palmo. Uma janela com alguma paisagem que venha de fora. Há dias em que eu escrevo um romance inteiro na cabeça. Nome de personagem, trama, estrutura, linguagem, chego a ensaiar uma dicção e até umas metáforas eu deixo debaixo da língua para depois engolir a água que junta na boca. Para ver se eu mesma submerjo. Se eu te contar você não vai acreditar. É inacreditável. Mas depois eu esqueço e deixo de lado. Você sabia que estou com as vistas cansadas? E confesso, bem, não é o caso de confessar, mas admito sem pudor que até isso eu acho que é um sinal para eu parar de ler tanto. Não que eu realmente esteja lendo qualquer coisa assim consistente mas leio provas e mais provas e exercícios e redação atrás de redação e antes eu me sentia Ben-Hur quando notava que havia uma evolução nos meus alunos, eu vibrava, era um choque, a música certa que toca no momento certo você entende? quando eu sentia, quando eu notava e constatava que o olhar dele sobre o texto havia desabrochado, quando era impossível negar que meus alunos deixavam de ser míopes comigo, que começavam o deslocamento de alma quando vinham falar comigo e conversar comigo e me fazer perguntas e pedir mais textos mais livros mais vida então eu achava que isso era vida mas se você me perguntar o que eu acho que isso é hoje eu sinceramente não sei mais o que te responder. Porque eu quero uma coisa mais prática sabe? Você me entende? Sem querer diminuir, não é isso, diminuir não é a questão. Mas o que é que eu faço hoje com um olhar que desabrocha? Não faço nada! Nada! O que esse aluno vai fazer com esse olhar de flor?! Igual sexo, sabe? Porque sexo é uma coisa que a gente também faz. Bom, não sei meus alunos, mas eu, sabe, eu faço sexo. Claro, gostaria de estar fazendo mais sexo? Sim, gostaria. Claro que gostaria. Não sou nenhuma doida. Eu estou apenas um pouco perdida um pouco cansada um pouco sentida um pouco sentimental um pouco quieta demais talvez e sem saber exatamente o que foi que aconteceu enquanto eu tentava, com a força que eu tinha, lutar e responder ao que se chama de vida ou ao que para mim se apresentou assim... mas sim, claro, gostaria de fazer mais sexo mesmo. Não estou reclamando de nada, claro que não, reclamar nem é a questão aqui, apenas para constar. A vida dentro de um casamento possui prioridades e é tolice crer só no lado bom da vida porque assim é pedir para se machucar. É impossível querer transar por exemplo depois de fazer as contas do mês, depois de fazer a feira do supermercado. Eu sei que é bobagem mas eu sei também que é verdade, desculpa mas eu sei. Eu sei. Quem é que vai colocar tudo dentro do armário, sabe? As compras. Você lava o banheiro, que é um ataque de psicanálise às avessas, e depois não consegue fazer nada senão dormir, ver televisão ou corrigir prova. Prova prova prova. E meu marido é que faz toda essa parte de lição, banho, tarefa, material escolar, reunião de pais, essas coisas eu prefiro não. Essa parte de filho. Já sou professora fora de casa. E também porque eu já faço almoço, já cuido da casa, do cachorro, outro dia o chuveiro queimou na hora do almoço, confusão absurda, eu troquei, ficou ótimo. A maquina de lavar. Liguei, fiz orçamento, recebi os técnicos, fiz tudo. Meu marido nem viu, nem ficou sabendo. Só depois. Depois eu contei. E assim, só para constar, eu não queria que fosse nada diferente disso, sabe? Assim, essa rotina, essa dinâmica me ajuda muito a ser assim. Assim como? você me pergunta. Assim, com eu quero ser. Apesar... bem, eu nunca mais fiz a unha em salão. Para quê?! Amigo, depois de uma muda de roupa o que é que sobra de um esmalte? Igual cabelo que eu parei de cortar, não corto, nunca mais cortei em salão, apesar de que melhorou mesmo assim sem corte. Eu gosto muito de cozinhar mas não quero ter que trabalhar com isso. É algo meu, para mim, algo que eu faço por mim, um mimo. Será que eu dou conta de montar um Liceu? Claro que Liceu é força de expressão. Algo assim para umas dez doze pessoas que eu fizesse acontecer algo mais pragmático mais parecido com vestibular e coisas assim. Mas se você me perguntar agora o que eu realmente gostaria de fazer, se você perguntar assim O que você quer fazer agora da vida? Bom, eu não saberia te responder. Eu não sei sabe? Eu não sei. Porque depois dos 27 anos você fica com essa sensação de que está atrasada pelo menos um pouco atrasada ou mesmo bastante atrasada porque honestamente eu não acho que todos tenham que fazer nada igual a ninguém não é isso não tem nada a ver mas quando você vê seus amigos com carro e férias e comprando as coisas e... sempre tem mais coisas... mas basicamente isso, carro e férias e um ar-condicionado mais potente, por exemplo, entende? Foi apenas um exemplo. Pode ser outra coisa, qualquer coisa, carro férias computador tablet ou carro férias e... você entende? Foi apenas um exemplo. Mas eu me sinto assim, um pouco atrasada em comparação. Eu não tenho vergonha de dizer isso mas é um pouco complicado porque tem sempre alguém que vem falar da idade e da neurose e de tanta coisa como se eu fosse ter 27 anos para sempre, sabe? Eu acho feio mentir a idade. Você mente a idade? Jura?! Mas eu acho feio. Não que eu julgue quem mente não é nada disso julgar aqui nem é a questão. Mas se você me perguntasse dois anos antes dessa nossa conversa de agora como eu gostaria de estar aos 27 anos eu acho que eu conseguiria te responder sem idealizar tanto, eu acho que sim. Ou se você me perguntar exatamente agora como eu gostaria de estar aos 30 anos, se você me perguntasse então eu te diria.

P.





Crédito da imagem: Mirror Cradle