segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Mamãe-Coragem (o lado de fora das coisas)

Na primeira série, a professora alta, magra, de bochechas rosadas e um crespo cabelo amarelo, uma normalista boba chata mandona e completamente despreparada, convocou uma reunião com os pais, para entregar o envelope com os resultados de final de ano de cada aluno. O convite para a reunião era um rodapé de página feito no mimeógrafo. O texto do convite começava assim Senhores pais...

Era a primeira vez que eu vivia algo do tipo.

Antes, no pré-primário, e antes ainda, no maternal, as férias simplesmente chegavam. Se um dia era terça e depois, quarta, assim também acontecia nos meus dois primeiros anos de escola: um dia havia aula e no dia seguinte, férias!

Pois na primeira série, essa doce matemática seria enterrada para sempre, posto que morta. A partir de então, só os alunos aprovados teriam direito a férias. Lembro-me da professora explicando isso como se não fosse nada demais, embora meu estômago gelado me dissesse outra coisa. Ao longo daquele ano, sempre que começávamos um exercício, a chantagem também começava: é melhor que façam direito, para não serem reprovados e não perderem as férias!

Esse era o texto decorado, exclamado e acompanhado por um olhar que desejava o medo como paisagem.

Quando chegou dezembro, mês da entrega dos envelopes, eu não tinha a menor dúvida de que eu não teria direito a férias. As aulas de desenho haviam acabado, as aulas de pintura e música também. Agora, tínhamos matemática. Tenho ódio de matemática.


Pois bem, sou o mais velho de três filhos. Era a minha primeira reunião de pais. Era a primeira de minha mãe também, que foi sem meu pai. Notei, logo na entrada, que os pais de meus colegas eram velhos. Todas as mães usavam óculos enormes, ou eram gordas, ou tinham coque, ou pelancas e banhas. Outra coisa que notei foi a roupa das outras mães: como eram feias e frouxas. Um calor infernal e aquelas mães dentro de largos ternos cinzas e tamancos de serragem socada.



Minha mãe era nova, magra, tinha a pele lisinha, o cabelo macio e solto, curto, com tinta! Minha mãe usava roupas amarelas e azuis, com flores e frases, e minissaia.

A reunião começou e minha mãe não entrou na sala. Nós alunos deveríamos esperar do lado de fora, disso eu sabia. A porta da sala onde os pais se encontravam permaneceu aberta, afinal, poderia haver atrasos.

Com o andar lento da reunião e os resultados que vinham por ordem alfabética, tive tempo de pensar por que minha mãe preferiu esperar fora da sala. Está mais fresco aqui, ela respondeu quando perguntei.

A professora dizia o nome de alguém da classe, menino ou menina, e começava a falar do desempenho dele, na frente de todos os pais. Depois, a professora entregava um envelope com um A gigante na frente, se fosse o caso de aprovação. Do contrário, o envelope era um imenso e pardo vazio.

Os pais de envelope pardo deram sacolejos e vigorosos puxões em meus colegas ali mesmo, no pátio. Depois, entravam no carro e iam embora. Minha mãe olhava para baixo quando alguma agressão acontecia. Eu fazia o mesmo. E foi ai que notei que de todos os pais pressentes, apenas minha mãe não estava de carro, andávamos a pé. E de repente, um cálculo que eu julgava sem números me invadiu:

1) Minha mãe estava só, comigo, e o convite dizia Senhores pais...
2) Minha mãe não era nem velha nem feia nem gorda e não usava as roupas da minha avó.
3) Minha mãe nunca me batia quando eu fazia algo de errado. Nunca. Minha mãe raramente me deixava de castigo. Ela conversava comigo (admito que algumas vezes, se eu pudesse, escolheria ficar de castigo, era mais simples que criar argumentos durante trinta longos minutos).
4) Minha mãe trabalhava. Não cuidava só da casa. O sustento da família partia dela. Eu e meus irmãos éramos criados e educados por ela e mais ninguém.
5) Será que em algum lugar do mundo meu pai ficava do lado de fora das coisas por não estar acompanhado de mim e de minha mãe? 


Então compreendi que minha mãe estava deslocada do mesmo modo que eu me sentia deslocado na aula de Educação Física, com a força de um antimovimento que te faz estancar. Porque para aquela escola idiota, para aqueles professores autoritários, para aqueles pais que nasceram velhos, só existia um jeito de ser mãe. Assim como no jogo mais ridículo do mundo, o futebol, só existe um jeito de ser jogador de futebol. Ninguém brincava quando o jogo era de bola, todos só queriam vencer. Não queriam uma mãe solteira naquela reunião, queriam tradição.

Aquilo era preconceito e eu não sabia ainda.

Tão logo o meu nome foi dito minha mãe entrou na sala e seguiu em direção ao envelope com a letra A. Nem parecia que ela estava do lado de fora da sala, tão rápida ela foi. Eu não consegui acompanha-la. A professora começou a falar do meu desempenho quando minha mãe deu-lhe as costas e saiu. Não vi mais nada, pois minha mãe virou minha cabeça. Apenas escutei os murmúrios.

Eu passei?, perguntei sem graça, apenas para ouvir que sim.

Depois dessa reunião várias outras aconteceram, incluído também as reuniões dos meus irmãos, e em todas minha mãe ia acompanhada apenas dos filhos.

Thaise Diaz (mamãe!) ao lado de Fernando Bonassi

A minha maior sorte, ainda hoje, é ser filho de minha mãe.

A primeira conversa que tive sobre poesia foi com minha mãe.
A primeira conversa sobre capitalismo também.

Minha mãe usava walk-man, que tocava Raul Seixas, e corria em maratonas. Hoje ela usa Ipod e escreve sobre filmes iranianos. Em meio aos clássicos de Nina Simone e Leonard Cohen, o ouvido dela alcança Travis, Keane e Jigsaw do Radiohead. De vez em quando ela ainda corre.

Minha mãe já enfrentou homens, carros, mulheres, comerciantes, cachorros, familiares, tempestades, seriemas, vizinhos, escorpiões, deuses, baratas e já me enfrentou também... tudo por ser responsável.

Minha mãe já teve o cabelo platinado, depois com permanente, depois ruivo. Minha mãe é loira e me soprava beijos antes de eu entrar em sala de aula. Minha mãe, até hoje, aumenta o som sem pudor quando toca twist and shout, com Beatles. É mais que justo, pois ela dança como poucos!

Durante toda minha infância e adolescência, minha mãe nunca falou mal do meu pai, mesmo ele sendo tão ausente.

Lembro-me de estar deitado no tapete da sala com meu irmão do meio e minha mãe colocar um vinil de Mozart e fazer a gente brincar com aquelas sinfonias.

Tenho amigos que escondem dos pais tatuagens, orientação sexual, vícios, amores, endereços, amigos e outras coisas. Minha mãe conquistou minha honestidade. Às vezes digo que não quero conversar.

Entre Orides Fontela e Donaldo Schüler, entre Hilda Hilst e Schopenhauer, lá está minha mãe, permitindo que os filhos que teve convivam com uma mulher jamais resumida, jamais repetida, jamais enquadrada, jamais ordenada!

Eu e meus irmãos conhecemos o respeito antes da norma, o amor antes da lei e a disciplina como um fruto.

Nós três possuímos hábitos que podem mudar e não temos obrigações com a opinião.

Somos filhos da Liberdade!


P.


Imagens: acervo pessoal