domingo, 1 de setembro de 2013

O café cego (sobre impedimentos e limites da existência)




É que antes eu pretendia escrever sobre a morte.
A morte anda exigindo que eu escreva sobre ela. Sobre a presença dela. Sobre como ela chama atenção quando blefa, quando é falsa, quando surpreende, quando é vencida e sobretudo quando aparece sem ser chamada.

−Não entendo tamanha rejeição. Não sei por que me abandonaram assim...

Esquecer a morte é fragilizar-se. A morte não é ressentida, porém, não raro confundem-na como rancorosa. A morte também se fere. A morte também possui méritos.

Ao esquecer a morte, de um modo natural e lento, alimenta-se um certo ressentimento errado, que trapaceia, te faz de doido.

Mas da morte só tenho interrogações. Tudo o que escrevi até agora sobre a irmã gêmea da vida são dúvidas. Observações desconfiadas, suspeitas pensadas, imprecisões e anfibologias (!) desenhadas com o mesmo traço sério que vinca o meio de minhas sobrancelhas.

Preciso de mais tempo, ironicamente, para escrever sobre a morte.

E foi ele mesmo, o tempo, que me apresentou a tarde.

A tarde foi sequestrada do tempo dos homens. Durante a tarde, a contemplação foi banida. Não se sabe mais do descanso entre dois passos e uma escadaria, em uma tarde. Removeram os bancos com recosto e as praças, e no lugar salpicaram filas e séries, um surto aborrecido de automatizações. A tarde tornou-se tarde demais.

A tarde quente é como um dragão que jamais se enfrenta.

A tarde fresca é o silêncio dançando a valsa dos descalços.

E quando ampulhetas quebradas reúnem-se para o chá das 15, faz-se a tarde chuvosa.

A tarde plena é um basta, um vento doido na roseira. Baforejo de touro rente à terra seca. 

As botas no alto e o flerte entre o arqueiro e o horizonte são a tarde plena. Não há “ter” e “que” em uma tarde plena.

Posso falar à tarde inteira sobre a tarde – a tarde inteira por quantas tardes eu quiser. Mas não agora.

Agora – agora que a morte um pouco perdida me visita – só posso falar e escrever sobre o café cego – o café cego e as lentes que encontrei nas esquinas de um beco com destino-de-anão.

Só.

P. 



Imagens: Pinterest