sábado, 7 de setembro de 2013

Em busca da inveja (afrontas sobre o modo capital)




O escorpião carente jamais picou alguém e guarda tanto veneno que comove.

Do mesmo modo, fingindo ter razão no próprio mal que esconde, o capitalismo investe e contrainveste no que for possível para que vença o tempo e o homem, sem abrir mão de nenhum dos dois, muito antes, o capitalismo não quer perdê-los – apenas derrota-los diariamente.

O capitalismo é o primeiro a oferecer, para o tempo e para o homem, o remédio envenenado para que tudo siga sempre na mesma medida severa da dor e da repetição.

Nada disso é novidade, certamente. Apenas afirmo e deixo claro que nem todos estão surdos, meu amigo. Minha audição é selvagem e não se equaliza bem com as linhas de Graham Bell. Apenas afirmo que sei que o capitalismo existe e sei como opera, o que tenta cortar e como muda de forma, de cor e de som com a única intenção de colecionar derrotas e dependências. Cada gota de frustração humana é, para o capital, uma fonte da juventude sem tamanho. Pena o capitalismo ser até então infinito...

Acabo de pensar que o erro me acompanha. O erro e a sede. Sair de casa já é errar. O capitalismo me aplaude. Tudo o que digo será usado contra mim, no tribunal das cifras. Há três tipos básicos que transitam pela grama sintética do falso espaço capital: os azarentos, os mudos e os mentirosos. Sair de tais condições impostas pelo capitalismo é flertar com algum nível de morte capital. É desafiar o capitalismo em si mesmo. Porém, saber que existe um limite e um vórtex agindo contrariamente ao que é e sobretudo ao que não é – eis o que mais irrita o capitalismo. E saber que tal impedimento, que tal limite não é jamais algo natural, é nocivamente imposto, possibilita um movimento autônomo aos indivíduos, ainda que não sem cansaço.

Quando o jargão do senso comum exclama que “conhecimento é poder” ele não está mentindo. Contudo, como eu disse acima, tudo é usado em meu desfavor no capitalismo. De tal modo é assim, que o capital transborda conhecimento para que se pense, desse modo, que você realmente sabe alguma coisa.

Então deixa eu te contar um segredo: você não sabe nada! E o que você realmente sabe já foi transformado em bosta de galinha, ou seja, pode fazer muito bem, de fato é um excelente adubo, porém fede! fede muito! e ninguém quer ficar perto daquilo que fede. Ninguém!

Então se você está mesmo decidido a saber algo, a ter o poder do conhecimento, é bom não esquecer que você vai ficar sozinho, meu amor! Vai ficar muito sozinho! O capitalismo vai te deixar fedendo bosta toda vez que você (terminar de ler um livro e) descobrir mais um podre desse sistema cínico que se alimenta da fome.

Fiquei pensando em tudo isso enquanto eu mesmo procurava um esmalte de unhas. O nome do esmalte é Inveja Boa e eu não o encontrei, ainda. No armazém do capitalismo, por hora, falta inveja boa, mas sobra inveja ruim. E dentre outras coisas, você encontra à venda demais pecados capitais, pecados de modo geral, ironia, mágoas, dores, alegrias, arte, censura, medo, erros, santos, demônios, escravos, fé (tem vendido muito, a fé), Deus/deus (também vende muito), ajuda, inteligência (um pouco em baixa), burrice etc.


Eu soube de fonte fidedigna que estão construindo um armazém de estoque só para burrice etc e em breve haverá promoção! Corre lá e aproveita! 

P.


Imagem: Moritz Aust