segunda-feira, 12 de agosto de 2013

O Desencanto Da magia (Sobre a banalidade do mal e da morte)

Acordei mulher! Sem mentira nenhuma. Saí da cama com o corpo duro de quem dorme sozinho e imediatamente senti, em mim, os seios, a buceta, o cabelo alto, as estrias, e um ódio certo, latente.

Sem mentira nenhuma: acordei mulher!

O mágico pede auxílio à assistente de palco, que é sempre uma mulher. Ele avisa à plateia do que se trata, O truque do serrote! Muda então de ideia e troca a assiste por outra mulher – e essa é da plateia, propositalmente. O risco é o ouro do impossível. Gente que se da muito bem com o que é possível, não raro, é pobre de espírito.

Os homens controlam a tensão abrindo um pouco mais as pernas. Coçam de leve por cima do zíper só para mudar o pau de lugar e se fazerem de céticos. As crianças aproveitam a brecha para desejarem enquanto podem. “Todos estão vendo, então, ninguém está me olhando”, deduz um menino enquanto enfia o dedo na boca.

As senhoras e os senhores, sem mexer as mãos, pensam que bom seria se a morte fosse assim possível, visível, voluntária, com um toque de magia.

E não é?

Pois eu acordei assim, assistente de palco, mulher da plateia. Acordei meio velha, achando a morte um truque impossível de ser feito sem sangue, sem dor. Não ousem bater palmas! Não ousem sequer ficar de pé!

Em frente a minha casa, ocupando parte da calçada, até hoje, havia um flamboyant vermelho, que foi envenenado. 



Em agosto começava a aparecer um ou outro broto que paria as folhas verdes e em setembro, as flores vermelhas da primavera chegavam.

Pois agora não chegam nunca mais.

E os galhos no alto, tão longos, ficaram tortos, ingrujidos e crespos. A casca grossa e forte e tostada ficou cinza e fosca, empoeirada. Com manchas tão doentes e gritantes que, para uma árvore, não eram menos que cicatrizes.

A árvore envenenada sem querer torna-se lenha.

O homem envenenado sem querer torna-se uma peça substituível que compõe a alegoria de uma ilusão.

O beija-flor todo dia descansava no flamboyant, antes de se meter nas flores. Mas isso era antes! Antes, vinha o sabiá com aquele jeitão de quem voa e por isso canta o que o homem não pode!

Antes, o bem-te-vi não era cego!... 

Antes de morrer o flamboyant, morreu a sua sombra. E eu que sou melancólico por vocação, me cubro de espinhos se apenas houver sol... Para mim, sol é para fracos.

Antes de morrer o flamboyant, antes de morrer sua sombra, morreu minha única testemunha.

Sou um homem cujo amor foi proibido. Por isso escrevi em muros, nas costas e em livros que Amar é permitido.

À luz da lua ou no escuro, foi embaixo do flamboyant que troquei beijos que ninguém acredita e abraços que todos duvidam. Conversas faziam cócegas. Segredos faziam bem.

Morreu minha única testemunha. E antes mesmo da sombra meu amor também foi embora. Agora estou realmente só. Morreu minha única testemunha.

Sem mentira nenhuma acordei mulher, pois foi o som do serrote que me despertou. Minha única plateia era a raiva, amiga de todas as horas. Minha mágica não vinha da vida, mas da morte de viver.

Acordei morta! Acordei sendo dividida ao meio! Acordei sem devir, sem saída, sem metamorfose, sem mágica.

Acordei sem explicação e cheia de dúvidas: acordei sem saber como é que uma coisa dessas acontece!

Como! Mas como é que te serram e te cortam e te dividem e te separam assim! Como é que te deixam pela metade na vida e nem te deixam sangrar! E nem te deixam doer! Como é que deixam a vida pela metade!

Como! Mas como alguém te mata com veneno porque você solta folhas demais!  

Como é que eu não posso amar quem eu amo e nem uma sombra – nem uma porra de uma sombra eu posso aproveitar!

Pois é! Eu não darei a outra face! Estão ouvindo?! Eu não dou a outra face! Muito menos darei meu perdão!

Minha maior vingança é a poesia!

Adeus meu querido flamboyant!

Adeus sombra!

Adeus beija-flor! Adeus sabiá! Adeus bem-te-vi!

Adeus meu amor! Adeus.

O mágico do norte e seu serrote desencantado

P.



Imagens: Acervo pessoal.

ps: Adeus, canalha!