quinta-feira, 25 de julho de 2013

Quando o sol baixar


Acordei com o braço dormente. Parecia ter algodão e areia no lugar de osso, carne e sangue. Formigava sem parar. As pontas dos meus dedos estavam roxas. Desmoronei meu corpo para um lado, livrando o braço do meu peso. Quase em vão, tentei me lembrar do sonho que tive enquanto o sangue voltava a correr. Mas senti que há mais esperança... há sempre um pouco mais de esperança quando se acorda de pau duro. Sobretudo quando bem se aproveita a ereção, molhando a cama, manchando os lençóis, melando a mão – a mão que me aperta e que me relaxa. A sua mão ou o meu braço forte?

Olho para janela e depois por ela. Um céu azul. Nuvens brancas demais. Sol acompanhado de exclamações. Sabe esse tipo de sol? Sol que brilha, iluminado, sol de desenho animado. Sol amarelo por todos os lados. Detesto. Ouço o assobio alegre do vizinho. Ouço a água molhar a grama verdinha. Ouço até o cão abanar o rabo, feliz. Ai, que agonia! Que falta de paciência! De súbito, um passarinho atravessa a cortina verde e branca de lã sobre a janela que dorme sempre aberta. Escancarei de vez a janela e torci a cortina como se fosse um cabelo comprido. Prendi bem no alto.

Procurei o pássaro e ele estava na parede do meu quarto. Achei que estaria em cima da estante ou em cima dos meus livros. Nunca na parede, como um quadro. Um prego. Não sei dizer como ele conseguiu essa proeza. Lembrei imediatamente das pessoas que, tomadas e possuídas, caminham por paredes, e tetos, sem distingui-los do assoalho. Espirrei. 

Desci as escadas e deixei a porta do quarto aberta para que o pássaro pudesse sair por ali também. Quando cheguei na cozinha encontrei cores que não perdem minhas vistas. Café preto, olhos escuros, fumaça. Uns dedos carnosos e pálidos. Um sorriso encardido na boca mole e seca.  

Catiripapo. Anamnésia. Memorabilia. Gude. Debrunho. Algumas palavras me deixam sem força. Querem de mim uma fraqueza estranha. Espirro mas espirro uma duas três vezes.

Silêncio.    

Pois então: todo isolamento é culpa. Sabia sem saber. Vai me ajudar muito. Ajudar em quê? De uns tempos pra cá meus ouvidos deram pra ouvir diferente. Bebo o café, provo o bolo. Calma. Manhã ainda. Óbvio. O óbvio não podia ser mais violento. Mais truculento. Mais necessário. Segunda-feira não é brincadeira. Você pisca e é segunda outra vez. Nunca vi tantas quartas e quintas de uma vez só! Hoje não será diferente. Hoje é o telefone que toca, não para mim. Hoje é engano. É o e-mail que não abre, a quina da mesa, o cadeado que não fecha, alguém na porta pedindo água para beber.

Hoje é a costumeira solidão.

Volto para o meu quarto e coloco fones em meus ouvidos. Não ouço nada. Gosto da sensação de ter algo tapando meus ouvidos. Um ventinho manso desliza em minhas costas. Ai, ai. É... pode ser, talvez. Quem sabe. Quem sabe hoje, mais tarde, quando o sol baixar. Quem sabe à noite. Quem sabe...

Olho para o chão. O pássaro está morto.


P.

Imagens: Pinterest