quinta-feira, 4 de julho de 2013

Lavrador ou Semideus (Temas Filosóficos)


...not sharing secrets with any old fool
Naked, The Spice Girls

Acordar é sempre a parte mais difícil do dia para quem vai dormir por último. O colchão não amolece de modo algum, o que é um bom sinal, admito. Fico quase impressionado. Esse colchão me custou caro e é realmente bom, contrariando as minhas expectativas. Tenho essa intuição de que as coisas, já faz um tempo, não são mais feitas para durar. Qualquer coisa. Não é um colchão de mola. Não sei o nome que leva. Alta densidade. Queen size. Comprei de 12 vezes. Salário de estagiário. Só que depois, durante algum tempo – duas semanas separadas por seis meses... após dois dias, e depois mais quatro meses distantes de mais ou menos 20 dias ininterruptos.... – durante algum tempo eu dormir em um colchão de mola, formidável. Era ótimo ir dormir. Era ótimo e fácil acordar nele. Quando tinha chance de aproveitá-lo por mais tempo, sempre dava um jeito de marcar uma foda. A mola melhora muito uma trepada. O movimento flui melhor. A hora que você começa a meter e a socar ela rebate, através do corpo do outro, o seu impulso fodal. Bom demais! Mas parece que colchão de mola não faz bem para coluna. Então eu acho que é isso. Que é o colchão, que não é de mola, que me deixa assim de manhã. Sem um pingo de paciência. 


Fuckin’ shit estou atrasado demais. Ah mas foda-se, é assim, com todo mundo é assim, ninguém gosta do trabalho. Sempre tem uma coisa pior também. E o cara até pode não mentir, pode falar sério mesmo quando diz que gosta do que faz, que tem vocação e segue a porra da vocação e foda-se. Mas e dinheiro?! E o dinheiro pombas! Eu não vou ficar sem dinheiro! Não vou! Eu quero viajar nas férias! Quero esquiar! Fazer mergulho! Pagar uma puta! Foda-se então! Foda-se mesmo! Foda-se Adorno! Foda-se Benjamin porque se eu quiser eu compro toda a coleção dessas porra desses filósofos à vista e soco na porra da estante e leio depois que eu voltar de Londres e foda-se! Agora vem neguinho falar de vocação... de... criticar o capitalismo e... como é mesmo que ele me falou? Liberdade é pouco... e o que depois? Ah foda-se!... Porra estou atrasado demais e ainda tem o estacionamento, bater o ponto, foda. Não vou nem lavar as mãos, vou assim mesmo. Foda-se, meu pau é limpo. Mas porra nem quando eu era moleque saía tanta urina. Mas não gosto de mijar com pressa porque sempre acabo molhando a cueca com um pingo de mijo.


Você quer mesmo saber então eu vou te dizer como eu me sinto. Seguinte: as mulheres... e isso, você me desculpe, isso vale para você também... as mulheres suportam tudo dos caras com quem elas namoram, ou de quem ficam noivas, se casam ou trepam etc. Suportam exatamente tudo! Desde bebedeira toda noite com os amigos, traição, apanhar na cara, ficar sem sexo... o que for, tudo! Aceitam tudo! Só tem uma coisa que elas não aceitam de jeito nenhum e nunca admitem que não aceitam: a amizade masculina! Porque a amizade entre dois homens é um lugar de sombra e água. Então, desejo muito calor ao casal. E quando a sede deles vier – pois virá – eu não estarei cantando Pingos de amor.


– Bom dia.
– Bom dia. Casado?
– Não. Solteiro.
– Relaxa. O Procedimento é assim mesmo. Quanto mais direto eu for, melhor. Namorada? Namorado?
– Não. Solteiro mesmo.
– Última relação sexual com penetração?
– Uns 20 dias.
– E sem penetração?
– Ontem.
– Sexo oral?
– Sem penetração é o quê?...
– É isso mesmo. Pode assinar aqui. O pote de coleta é esse.
– Certo. É por aqui?
 – Isso. A porta mais clara.
– Obrigado.
– Senhor, sua assinatura. Tem que ser exatamente igual. Essa aqui faltou o pingo no i.



A bola de tênis é lançada longe, bate no pé de manga e vai para o meio do quintal. O cão vai correndo buscá-la. Quando volta, com a boca cheia, vê que a porta de vidro da cozinha foi fechada. Pelo vidro trincado ele, o cão, espia e vê as pernas peludas do dono se afastarem, indiferentes. O cão cospe a bola no chão e olha para um canto qualquer. Segue até a garagem onde se ajeita no chão, sobre um tapete velho. Suspira e funga como quem sabe o que é a vida e a morte. Um pouco indignado, pensa que poderia contar cada um dos segredos que sabe toda vez que fosse tapeado dessa maneira. “Se não quer mais brincar comigo, é só dizer! Mas me enganar desse jeito com a minha bolinha?!” é o que pensa o cão enquanto lambe as bolas do próprio saco e sente da chuva cair um pingo.

P.



Imagens: Pinterest