sexta-feira, 26 de julho de 2013

A chance de um amor se perder


Uma moeda. Tostão furado. Redonda e óbvia. Cara você ganha. Coroa você perde. Nostálgica disputa de poder. Poderia jogá-la para cima e decidir-me pelo sim, pelo não. Ou abandoná-la ao seu destino ordinário de barganha.

Mas eu vi. Eu sei que vi na palma da sua mão fechada, emaranhada na linha da vida do amor e do destino - eu vi essa moeda pegar para si o calor que é meu. Não sei se deveria dizer essas coisas. Pregam que o desencanto surge assim que se sabe do próprio encanto. Então, ai de mim!

Gotas. Suor. Músculos. Brutalidade. Delicadeza. Quis tanto te guardar te vencer te sugar que libertei meu tato de mim mesmo. Não sei explicar quando a moeda caiu morta em meu coturno e ficou comigo, vendo você partir. Foi antes de você morder e soprar minha nuca? Ou depois que nossos lábios fizeram clique?

Seguro-a entre os dedos. E cubro um resto de lua que desampara à tarde fria. Angulação: tudo depende do ponto de vista. O que enxergo é menor que o doce borrão que você deixou no meu pescoço.


É menor realmente mas me cabe e me contém. Sobretudo agora. Agora que escrevo. Ou que prego em mim mesmo mais um cravo. Dá no mesmo. E tremo diante do horror aberto - e deserto - de reticências. Já me viciei nas exclamações discretas que você divide comigo. Esperançosas feito os seus olhos tão verdes.

Amanhã mesmo voltará para o seu bolso, esfera achatada, tilintante, e se perderá entre as outras moedas: e se perderá entre as outras moedas. Perde-se cinquenta centavos com o mesmo leve ignorar que se perde a chance de um amor se perder.

Por isso ignoro, finjo de tolo, tapo os ouvidos quando ouço o vento as vozes as coisas os fatos dizerem que um dia – amanhã mesmo – essa moeda perdida serei eu.

P.


Imagens: do filme Weekend [Dir: Andrew Haigh Ano: 2011. Roteiro: Andrew Haigh. Orígem: Reino Unido. Gênero: Drama/Romance]