quinta-feira, 13 de junho de 2013

Um Buquê De Margaridas


Para Rodrigo S.M., para Mocinha e para Margarida Flores (todos in memoriam)


Receita caseira de como escrever textos, crônicas, contos, novelas, romances, dissertações e teses!

Anote os ingredientes!

Você vai precisar de:

04 paredes de solidão

01 chão impossível

01 teto de angústia

01 leitor (IMPORTANTE: O leitor precisa ser maduro. Não pode ser um leitor verde ou "de vez".)

01 memória de elefante

01 dedo

01 ferida

01 buquê de margaridas

Agora, vamos ao preparo!



Antes de começar certifique-se da luz e do silêncio.

Dito isso, ao trabalho!

Tranque-se entre as paredes de solidão.
Na sequência, encare a gosto o teto de angústia.

O recomendado é encará-lo a vida inteira, mas vai depender do que você deseja escrever. Portanto, pode ser meia hora, pode ser uma hora e meia. Faça isso enquanto cai no chão impossível. Cair é apenas a primeira opção. Tropeçar e trombar estão entre as demais possibilidades. Eu prefiro esparrachar logo de cara, sabe? Deixo a seu critério.

Em seguida, ponha o dedo na ferida.

Quanto mais sangue sair, melhor. Pode ser que também saia pus.

Pode ser que saia um gato. Pode ser que saia um cocodilo.

Pois bem... o ideal é deixá-lo escorrer até que o chão impossível fique ensopado, bem vermelho mesmo.

Quando não aguentar mais de dor, tire o dedo da ferida e use-o como um aspersor, jogando sangue nas paredes de solidão, no teto de angústia e sobretudo em você mesmo.

Volte a descansar o dedo na ferida.

Dessa vez, porém, certifique-se de que o dedo toca em algum osso.

Agora, enquanto a ferida lateja e o sangue começa uma simbiose com o impossível, com as angústias e com a solidão, vamos trabalhar com a memória de elefante.

Fique só com a memória. Liberte o elefante.

Separe as boas lembranças das más.

As boas lembranças você deve enfiá-las no nariz, uma atrás da outra, até que comecem a vazar pelos olhos.

Em seguida, prove apenas um nada das lembranças ruins, será o suficiente para despertar uma bruta sede. Beba do seu próprio sangue que passa.     

Feito isso, volte ao dedo e à ferida.

Enfie o dedo na garganta.

Enfie bem fundo até vomitar o leitor, que deve sair do seu âmago na forma de uma primeira frase. E trata-se exatamente de apenas e tudo isso: a primeira frase.

Agora, repita todo o processo.


Repita todo processo até que você tenha um conjunto de primeiras frases que forme finalmente um parágrafo.

E repita tudo de novo até que, depois de tanta angústia, você tenha dois parágrafos.

E torne repetir até que, depois de quase morrer de solidão, você tenha uma página.

Tudo e tudo de novo para que, depois de tanta dor, você tenha um conto, uma crônica, um capítulo, um verso enfim sangrento nas mãos, com a força e o alívio de um vômito.

Por fim, pegue o buquê de margaridas já posto em uma linda jarra com água.

Posicione a jarra de modo tal que as margaridas disfarcem a ferida esburacada no seu peito.

Agora, comece a reescrever. 




P.

Imagens: Google