quarta-feira, 26 de junho de 2013

A ‘cura gay’ e a falha do ato político



  1 – Sobre homofobia, machismo e cristianismo como expressão de ódio

Homofobia é a manifestação arbitraria que consiste em taxar o outro como inferior e/ou anormal em relação ao desejo entre dois homens, entre duas mulheres, e à prática desse mesmo desejo.

Por tratar-se de uma diferença irredutível, a homossexualidade, e portanto o homossexual, em função da homofobia são mantidos e tratados à distância e acuados em uma zona do medo, reprimidos como se não fizessem parte da política, da arte, da sociedade e da própria definição de homem e humanidade desde a fundação desses termos até como os concebemos atualmente.

É nesse sentido, portanto, que a homofobia não se constitui somente de agressões físicas e verbais que destroem a integridade corpórea, a liberdade e a autoestima dos homossexuais.

A homofobia também está naqueles que afirmam “Eu não entendo, mas respeito!” ou ainda “Eu não aceito, mas respeito!”

Não entender o desejo homoerótico, homoafetivo e/ou homossexual é colocá-lo em uma categoria negativa da diferença do desejo heterossexual – não apenas no sentido de distinto, mas diferente na medida em que é incompressível. E se é considerado por outros homens como um desejo incompreensível, será tratado sempre com distância, na clausura e com bruta ignorância, uma vez que não é possível entendê-lo, supostamente.

Eu compreendo o amor entre homem e mulher não por que foi esse o único amor que Deus deixou na terra, pois não foi! Eu compreendo tal amor porque o amor, a mais anárquica das paixões, se faz simplesmente e sempre de modo autônomo, ultrapassando os limites do ódio, do tempo, dos homens que pouco pensam e muito podem e ainda das leis, pois, em função das leis pode-se apenas reprimir!

Eu sou homossexual e compreendo o amor entre um homem e uma mulher tanto quanto compreendo o amor entre duas mulheres.

E como é curioso observar, por exemplo, o desejo de homens heterossexuais por duas mulheres! Esses homens deitam-se com duas mulheres, masturbam-se vendo duas mulheres transando. Eles experimentam a homossexualidade feminina, mas rejeitam totalmente o amor e o sexo entre dois homens.

É que sexo entre duas mulheres, nesse caso, está a serviço do prazer do homem. As mulheres são transformadas em fantoches do gozo.

Portanto, o homofóbico é sempre um babaca machista!

Um babaca machista, sim, pois ao rejeitar a homossexualidade masculina está rejeitando também algo que foi posto como inseparável dos gays e das mulheres: o feminino, a feminilidade e toda a inferiorização imposta às mulheres, pelo patriarcado.

O gay efeminado é o gay que mais sofre preconceito porque, ao fim das contas, como ele possui muito do feminino (essa invenção maldita), ele é muito inferior, pensa o homofóbico.

Assim, os gays deveriam ser comestíveis, como são comestíveis as mulheres, que não passam de mero corpo para os patriarcas.

Os gays, portanto, são vistos como carne pelos homofóbicos! São vistos como alimento para as pirocas resumidoras que carregam. Mas eles não podem escravizar os homens, mesmo os gays. Posto que isso seria também se auto escravizar. Então, transformam o gay em marginal, em doente.

A homofobia, esse preconceito rasteiro, ou seja, preconceito de gente que exibe “opinião própria”, portanto de gente burra, lembrando que a burrice é uma categoria moral, liga-se diretamente ao elogio à doença que se faz tão presente na sociedade atual.

Homofobia é doença! Machismo é doença!

A homofobia é ainda um modo fetichizado de apego. Um sintoma de quem é materialista. O homofóbico é um dogmático. Um adorador de conivências. Por isso, os que se dizem tementes ao Deus, os que se dizem crentes, os que “amam, adoram e esperam” estão resumidos às instituições de poder que por serem apolíticas, são sempre dúbias, ambivalentes.

Mas essas instituições, que formam estados e bancadas, carregam consigo a força das massas, dos rebanhos, dos que ainda precisam ser guiados, vítimas de uma carência de visão de mundo.

O dúbio, presente no pseudo-religare dos líderes religiosos, expõe-se nas definições que essas instituições e líderes se dão: são santos e pecadores. Falam de amor e praticam o ódio. Afirmam libertar e culpam os livres. Dizem que escolher é possível mas também falam que fazem apenas o que o Deus deles manda.

Essa conivência transforma-se na prática do desprezo – pois um Deus que tudo pode, um Deus do impossível, pode inclusive odiar, segregar, excluir e pode depois falar que não está fazendo nada disso. 

Mas está!

E tudo o que é desprezado é violentado e humilhado.

E embora se afirme que os humilhados serão exaltados, isso parece valer para todos, menos para os homossexuais.   

Como se sabe bem, o cristianismo, herdeiro da tradição judaica, transformará a heterossexualidade em forma única de conduta afetiva, e mais que isso, em uma lei divina.

O cristianismo é responsável, no Ocidente, pela inauguração e pela tradição da homofobia – o que jamais havia sido praticado por nenhuma outra civilização. Isso deságua, agora, no que se conhece por heteronormatização.

O fundamentalista religioso, e o religioso judaico-cristão de modo geral, sobretudo crentes e católicos, entendem a homossexualidade como uma ameaça ao crescimento da população. Um empecilho à reprodução que contraria a reprodução da espécie: esse é o maior mal que apontam contra os gays. Como se a prática homossexual esterilizasse os bilhões de úteros que habitam o planeta Terra, automaticamente.

Considerando o estado atual das técnicas de procriação e a liberdade e posse sobre o próprio corpo, quem ainda crê que a reprodução da espécie depende só e tão somente do coito entre homem e mulher, faz-me rir...



2 – Sobre a ‘cura gay’ e a falha do ato político

A homofobia encontra seu ápice, agora, no que envolve o equívoco que suspende a resolução do Conselho Federal de Psicologia, de 1999, que proíbe o profissional da área em questão de colaborar com eventos e serviços que ofereçam tratamento e cura à homossexualidade e que também impede qualquer reforço aos preconceitos sociais em relação aos homossexuais.

A “cura gay”, remédio para uma doença que nunca existiu, volta a ser oferecida pelas mãos dos farsantes do intelecto, mal amados acovardados, os fundamentalistas religiosos.

Adolf Hitler, em seu regime autoritário e sua política de ódio, usava constantemente o termo “cura gay” e promovia tratamento de hormônios entre gays arianos e arianos heterossexuais para realizar o impossível: reverter o quadro gay.

Os gays arianos que ao fim do tratamento não conseguiam uma ereção em contato com uma mulher, eram mortos. “Temos que abater essa peste com a morte”, disse o Führer inúmeras vezes, como relata Daniel Borrillo em seu Homofobia: história e crítica de um preconceito (2000).

Portanto, a política de Marcos Feliciano e dos demais que o apoiam, como o deputado João Campos de Araújo (PSDB) e o pastor Silas Malafaia, é uma política de ódio, inspirada sem dúvida na política de Hitler.

Pois bem, já que a “cura gay” envolve justamente psicologia, e também a psicanálise, uma vez que se fala em profissionais da psique, chamo atenção para o seguinte: o ato falho.

O ato falho, ou lapso de linguagem, é um conceito psicanalítico que indica um erro na fala, na memória ou em uma ação em função do inconsciente que deseja revelar-se.

Segundo Sigmund Freud, em A psicopatologia da vida cotidiana (1901), o ato falho deixa em evidência a relação que há entre a real intenção e a intenção reprimida.

Através do ato falho, o desejo reprimido senão é realizado, ao menos se esboça, se evidencia.

O ato falho, portanto, pode estar presente também em ações políticas! Nesse sentido, eu questiono se quem sugere ou oferece uma cura não é o mesmo sujeito que deseja ser curado, que deseja tratamento, que deseja outra sexualidade, diferente daquela que exerce, que diz ser e ter? Para mim, parece muito evidente que sim.

Quando a política falha, todos somos reprimidos. Nenhuma evidência alcança o ato. 

Sei reconhecer erros, quando os comento. Todos nós temos conhecimentos morais e éticos que nos levam à percepção particular e em conjunto do que é um erro, do que é um estado de doença. Não encontro nada disso em minha homossexualidade.

Não sinto qualquer desejo de impor o meu modo de sentir e experimentar aos heterossexuais.

A falha no ato político de que falo aqui refere-se à fraqueza ética e exacerbamento moral e também, além  dos nomes de líderes já citados, à presidenta Dilma Rousseff, que é capaz de se posicionar em relação aos movimentos e manifestações recentes, que tangem o passe livre e às PEC's, mas é incapaz de se colocar  em relação à presidência da CDH, à homossexualidade, ao casamento civil entre pessoas do mesmo sexo.

Quando o assunto é o aborto ou a homossexualidade, Dilma Roussef, bem como Marina Silva, Aécio Neves e outros políticos, agem de modo escapista e covarde.  

O que está em jogo com a falha da política, é a legalidade do senso comum, a legitimidade da moral-imoral que engana a quem mais crê do que pensa.

O ataque feito aos homossexuais é uma jogada de poder e má fé. Enquanto os homossexuais são bombardeados pela bancada evangélica, os cegos do templo seguem induzidos a crer que tais ataques são movidos pelo divino.

E se recusam a ver o movimento político-econômico, sobretudo vindo de religiosos cuja relação com o dízimo é central e excessiva.


Mal sabem os que clamam, os que gritam, os que glorificam, que há uma indústria da fé, que transforma religião em capital. E que somada à indústria da libido, forma mecanismos de controle que diluem o voto e o dinheiro na fé, que se aglutina em um pus com o qual os tementes a Deus não temem brindar à infelicidade e à morte dos que querem apenas viver. Viver como todos que se sabem homens. Viver como todos que se sabem humanos.

P.

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