quinta-feira, 30 de maio de 2013

Elogio à doença



Cigarras roucas. Grilos mudos. E sinos. Sinos. Sinos.

Enquanto eu ouvia, caminhava em direção à universidade. Depois do portão maior, eu já estaria lá.

E mal pisei no salão do centro de ciências humanas da universidade, o tempo disse, indiferentemente:

– Restam dois minutos. E os seus cadarços estão desamarrados.

O próprio tempo ensinou-me a dar alguns passos sem temer tanto o tombo e a equilibrar-me na própria queda. Assim fiz.

Antes que se esgotassem os dois minutos, eu já estava na fila, dentro do banco.

Filas: o modo silencioso e terrível que o capitalismo inventou para a degustação de sapos, propagação de infartos e angústias asfixiantes.

Bancos: O lucro da morte.

Reconhecendo a minha folga, foi-se embora o tempo da pressa.

Tão logo ele saiu, ela chegou. A bruxa.

Desde muito cedo, aprendi a reconhecer bruxas. Pode-se acusar uma bruxa, boa ou má, de qualquer crime, delito ou mesmo de um pecado – essa grande mentira. Contudo, de nenhum modo se pode acusar uma bruxa de ser algo que ela não é.

As bruxas aceitam a expiação como um fardo. Isso porque admitem e assumem que não vivem em um mudo de meras polaridades e de dicotomias. Portanto, as bruxas, boas ou más, não recuam quando são acusadas de alguma maldade. “Somos todos bons. Somos todos maus”, pensam elas sem deixar de reconhecer que há dentro delas uma essência – e essa, sim, tende ao mau ou ao bom.

Nada disso impede que uma bruxa má cometa bons atos – nem o contrário.
A bruxa da qual falo agora é uma bruxa que tende ao mau.

Mais velha que jovem, de cabelos mais curtos que logos, tinha a face bem corada e os lábios pintados com muito vermelho. Os óculos de grau, com lentes quase transparentes e armação bem moderna discordavam um pouco da blusa de seda perolada, que quase voava com a saia matizada de rosa. O colo sem colar. As mãos nuas de anéis, tirante gorda aliança dourada, de casamento. As sapatilhas descoradas, com uma argola prata na altura dos dedos.

A bruxa não procurou a fila. Com a mão dentro de sua bolsa mágica (de camurça), foi até o guarda do banco e esse apontou a direção dos assentos preferenciais.  
Acomodada, seu olhar varreu todo cômodo.

– Oi menino bonito!  

A voz da bruxa era colocada, treinada, precisa. A calma voz de quem pode com os próprios desejos.

– O que foi, menino bonito? Não quer conversar comigo? Mas você é tão bonito! Qual o seu nome?

O menino já percebeu que a doce senhora é uma bruxa. O menino só não sabe se ela é boa ou má, na essência. E, muito sabido, nada diz.

– Vamos, Daniel, não seja mal educado!

A prepotência do pai atravessa o filho que é entregue de bandeja à gula da bruxa.

– Oh! Quer dizer que o seu nome é Daniel! Mas que nome mais lindo!

Agora, já de posse do nome do garoto, entregue pelo próprio pai, a bruxa pode lançar seus feitiços sem o menor obstáculo.

Os olhos crescem por baixo das lentes. Ela sorve em goles cada vez maiores a própria saliva.

– Escuta, Daniel, você estuda na escola Raio de Luz, não é? Esse uniforme que você está usando é de lá, não é? E você conhece a tia Marília?

Bruxas também possuem contatos. E Daniel conhece, sim, a tia Marília.

– E você gosta da tia Marília, não gosta? Ela é muito minha amiga.

Apenas um pouco, responde Daniel: Tia Marília não deixa ninguém brincar direito. Fica dizendo que todos vão se machucar, se correrem. E é o que eu mais gosto de fazer no recreio. Eu gosto de correr muito! Sou rápido!

– Mas você não pode correr, Daniel!
Diz a bruxa, preparando-se para lançar seu primeiro feitiço.

– Porque se você correr muito, bem rápido, você pode cair e até quebrar esse lindo bracinho!    
Ela diz tocando o braço do menino.

– Você quer cair e quebrar o braço, Daniel?
A bruxa lança, então, seu primeiro feitiço! A pergunta-afirmação que esconde o feitiço do medo, da repressão e mais ainda: da culpa.

– Ah, Daniel, você sabia que se você correr tanto assim na hora do recreio, e cair e quebrar esse bracinho lindo o seu papai vai ligar para tia Marília e brigar com ela? Seu pai vai achar que a tia Marília não te olhou direito, não é papai?

Papai responde “É!”.


– Está vendo, Daniel?! Então, o melhor a fazer é não correr no recreio! É melhor você ficar bem quietinho, bem comportado, para não cair e não quebrar o braço e seu pai não brigar com a tia Marília. Entendeu?
  
Olhei para a bruxa, para o pai do menino e para Daniel e fiquei pensando quanto tempo uma criança saudável pode resistir vivendo entre moribundos.

Fiquei pensando no elogio à doença que essa história caduca de bom comportamento acolhe. O quanto milhões de meninos e meninas que correm livres no recreio passam a ser crianças paralíticas a partir de uma ordem e de um temor alheio. Alguns pais preferem ver os filhos parados, sem movimento e em uma cadeira sem rodas que ensiná-los a correr. 

Alguns pais preferem o tédio dos filhos a ter que se aventurar com eles.

Talvez porque alguns pais, ainda que não sejam paralíticos, já não sabem mais como correr. Na verdade, eles só conseguem correr sentados. Eles só conseguem correr sobre as rodas do carro. Um tipo moderno de paralisia.      

O guarda avisa a bruxa que ela será atendida.

– Viu só, filho? Você tem mesmo que ficar mais quietinho. E dessa vez não é nem o papai nem a mamãe que estão falando isso...

Daniel morde os lábios e fica olhando para o chão, entristecido. O feitiço começa a fazer efeito. A bruxa procura a porta. Antes de sair, ela encara o pai de Daniel.

– Ele tem uma cara de atentado!
– Nossa, nem me fale!

Sem dificuldades, a bruxa se dobra até que seus olhos encontram os olhos do menino. Ela então descansa a mão sobre a cabeça dele.

– Mas agora acabou essa história de ser atentado, não é Daniel? Acabou! Fica bem quietinho, heim!

O segundo feitiço é lançado tão tranquilamente quanto o primeiro. E com uma força ainda maior.

Ela se despede do pai de Daniel sorrindo, enquanto a fila morna se move sem vontade.



Daniel, por sua vez, avisa ao pai que está com sono. Não consegue ficar em pé. Pede colo.

A bruxa avança em direção à saída. E tentando conter o próprio sorriso, molha os lábios com a língua, imitando uma serpente.

Quando ela finalmente passa por mim, me abaixo para amarrar os cadarços. 



Imagens: Google Imagens