sábado, 27 de abril de 2013

Sobre Homem de Ferro III: o narciso de armadura



Acabo de ler o caderno de cultura da Folha de S. Paulo, a Ilustrada de ontem, 26/04/2013, que trás uma crítica sobre o filme Homem de Ferro III (Shane Black, 2013, EUA/China). A crítica em questão é de Adriana Küchler, "enviada especial a Los Angeles", exclusivamente para escrever sobre o longa. Segundo Küchler, Robert Downey Jr. está "engraçado e sedutor como nunca (ou como sempre)." Para quem não faz par com o gênero do ator, o estrabismo é algo inevitável. Mas tudo bem, olhar de vesgo pode enganar mas não se engana. Mais a frente, a moça confessa que Robert "tem um jeito que a toda hora se confunde com o de seu Tony Stark." Sem querer ela acerta violentamente: o duplo é a questão que precisa ser pensada aqui.


Serei direto: Stark, além de namorar Pepper Potts (G. Paltrow), namora a si mesmo. É incrível como, em termos conceituais, os espectadores são induzidos à cegueira desse fato desde o primeiro Homem de Ferro. Stark é um Narciso e sua armadura o reflexo sobre o qual ele se debruça e afunda enquanto massageia o triângulo (geometria exata) que carrega no meio do peito.


"O terceiro Homem de Ferro é mais político, mas também mais humano, masculino e tenso, dizem os envolvidos."


Qual relação inversa poderia ser feita aqui? É impossível para Hollywood realizar um filme popular que não seja raso nas questões mais urgentes para nós, meros homens de carne? Política é algo vital e essencial mas sobretudo diário e tão digestível quanto palatável. Portanto, a política é necessária e saborosa. Se você pensa diferente disso, é simplesmente porque ainda não provou da política mesmo. Mas sim de uma apolítica. No Brasil, especialmente no senado brasileiro, para me deter mais que brevemente em um conjunto de ações políticas que acompanho, a apolítica reina soberana.


Voltando ao Homem de Ferro III, e à masculinidade plus que esse longa apresenta, o diretor Shane Black afirma que “o Homem de Ferro de Stark é mais masculino e mais difícil de fazer porque super-heróis sempre usam roupas colantes. O nosso herói veste uma peça tecnológica. Ele não está usando uma cuequinha."

Para Küchler, é realmente hilário. Para mim, não tem a menor graça.


E por mais tecnológico que seja, Stark ainda ecoa os desejos de um parente ultrapassado, o Homem de Lata.


Talvez para quem não se envolve e se comove com super-heróis, não lê gibis e nem é íntimo desse universo, Homem de Ferro III é só um filme. E aí o que importa mesmo é o macho galã que se veste de algo duro e, depois, se despe. Fetiche puro. Realmente, Stark não tem uma cuequinha por cima da calça, como o Wolverine tem nos gibis. Nos filmes da Marvel, aliás, nem um herói tem a cuequinha original.

Posso garantir, no entanto, que Stark, por baixo da armadura, por baixo do jeans de playboy filantrópico, sem qualquer perda ou dano, continua sem cueca. A ausência desse detalhe prova um espaço de liberdade ou um espaço a ser preenchido. Pois, afinal, qualquer externidade remete a uma interioridade.  Quem penetra, também é penetrado. Se não por fora, mas é por dentro.

É falsa, portanto, a "masculinidade" que o filme em questão tenta passar, essa que é mantida ainda pelo senso comum bruto que impele o homem como mera antítese da mulher e do feminino. E a única razão para isso é que ela, essa “masculinidade”, é o produto de uma dialética entre força bruta e QI excepcional, operada por ferramentas gastas como o masculino e feminino.  


Tony Stark, esse da tela, é o exemplo nítido e cada vez mais frequente do homem que resolveu sua (homos)sexualidade criando novos espaços físicos, conjugais e extra-conjugais. Jarvis, a armadura que ele tão orgulhosamente veste, o protege dos inimigos e, várias vezes, dele mesmo. Do medo que Stark representa para si mesmo. Jarvis não entra em qualquer questão de metamorfose com Stark. A armadura possui, sim, uma identidade independente. É uma questão de amálgama. Jarvis é o que Stark jamais vai conseguir ser, menos por fracasso e mais por culpa e complexo: complexo de homem. Todo homem é muito complexo.


Jarvis é o amor da vida de Stark. É o corpo de outro homem ao qual Stark se une, se cola. Ele sente Jarvis dentro dele, porque também está lá dentro. Os dois, juntinhos. Sempre que aciona a armadura, Stark se realiza enquanto homem, ou seja, é quando ele realmente goza: quando está com outro homem.



O que acontece, nesse sentido, em Homem de ferro III, é o duplo abandono advindo de uma armadilha social capaz de prender o mais inteirado dos cientistas: o outro.   

Talvez Küchler não tenha prestado tanta atenção na máquina, esse eu de ferro, mas no homem por trás do homem. Sim, o homem por trás do homem – e tudo o que se coloca a partir disso. Stark consegue salvar cidades e, eventualmente, o mundo. Mas não consegue se salvar de velhos dogmas e tabus.

Na mesma página da Ilustrada, Alexandre Agabiti Fernandez também escreve sobre o filme e conclui que a "arrogância e egocentrismo do personagem tiram a força dos questionamentos." Evidentemente! Questionar a si mesmo e pensar as próprias ações é muito mais difícil que construir uma armadura nanoteconológica com transístores miniatuarizados. A violência de se pensar exige uma super-ação e explode coisas pesadas sob um efeito muito especial...

Justamente por isso, Stark detesta o Capitão América. Não apenas porque o Capitão representa a relação com a comunidade e com o estado e por que o Homem de Ferro é um individualista nato. O passado e o erro são dois pontos fundantes do desencontro entre os dois heróis (o duplo se reapresenta). Mas a grande questão é que sequer passa pela cabeça do Capitão as possibilidades de não ser.

Capitão América convive com o próprio pesadelo de não poder ser outro homem. Stark é o outro homem de si mesmo e aceitar isso é o sonho em distante conquista.

Fernandez ainda afirma que há problemas no roteiro e que "o filme parece interminável." Eu bem posso imaginar por quê. 

O Homem de Ferro é um cansado, cada vez mais perto do que não é e abismado com o que é. Ele não esconde do mundo a “verdadeira identidade” que outros heróis protegem simplesmente porque o que tem de mais secreto está guardado na sua armadura-armário da qual ele jamais sairá.   
P.

Imagens: Google Imagens