quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O amor acaba

...na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido, às vezes acaba na mesma música que começou, às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor...
O amor acaba, Paulo Mendes Campos 



O amor acaba na sua frente, na sua cara. Sentado na sua cama. E acaba antes do fim. Porque o amor tem dessas coisas. E não tem nada disso. Não sei ao certo como o amor acaba em Paris e Londres, mas é certo que acaba. Mas sei que até ontem, até depois de amanhã o amor acaba em Porteirinha. Acaba em Pirapora. Acaba em Espinosa. Em Mato Verde o amor nasceu para acabar sempre, para sempre e nunca mais. Por toda vidinha. E em Montes Claros... bem, é que essa coisa de o amor acabar foi inventada em Montes Claros. O amor descomeça, em Montes Claros. O amor desinicia. O amor é terminável.

O amor acaba igual café acaba. O amor acaba e vai embora. Igual quando a luz vai embora. Mas quando a luz retorna, e as velas se apagam, e a escuridão se despede sozinha, e a real cegueira se abranda, e a cegueira da visão reluz, e a água do banho volta a sair quente, e ninguém mais se esbarra em nada, e ninguém mais... o amor não volta. Acenda todas as luzes de uma só vez! O amor acaba. O amor não volta.

O amor acaba nos churrascos de fim de semana. Um coração atravessado por um espeto. O amor acaba quando chove, quando entardece, quando chove outra vez e o melhor que você fez foi ficar em casa ganhando dos outros. O amor acaba quando você diz que vai comer o morto e sequer desconfia do que diz. Nos campos de futebol, quando um jogador entra com tudo, quando chega por detrás, quando dá uma enfiada pela esquerda, quando mete forte para dentro, o amor acaba.

Basta um ato falho, e um idiota atento, e o amor acaba.

Na biblioteca o amor acaba e acaba por distrair-se. Acaba em um verso que coalha o peito. Uma gota de silêncio atrás dos olhos, e o amor acaba. E quando se saboreia um vinho, e pode-se provar um gole ainda que seco de esperança, na dormência dos sentidos, na leve embriagues de uma impossível chance o amor acaba sem sequer um arrepio...

Façamos um brinde ao amor que já vai acabar. E que seja eterno enquanto acaba.

Acaba na polução noturna e covarde, no pesadelo incestuoso em que você se joga e se borra todo, nos símbolos burgueses de uma vida cagada de regras, entupida de sintomas, e de culpa. No seu nariz grande e perverso, o amor acaba. No seu olhar inocente e perverso, o amor acaba. Na sua estante cheia de livros comprados como se fossem títulos, e que você não lê, o amor acaba. E nas invejas que você esbanja, o amor acaba. No banho que você toma de joelhos, no dedo que você enfia em segredo, no seu fetiche em provar sempre o contrário, nos deslimites que você coleciona, na vontade cíclica de sangue que você traveste de virilidade. O amor acaba nessa sua cueca horrorosa e cavada, sem elástico, deus me livre. O amor acaba à distância, igual pós-graduação.

O amor acaba no terraço de um apartamento alugado onde copos de plásticos são cinzeiros, unicórnios são malditos, poetas são viados, mulheres são de bacon e aí não tem jeito, aí o amor acaba, aí o amor tem que acabar mesmo.

Enquanto seus amigos fumam, enquanto seus amigos somem, enquanto seus amigos mentem, enquanto seus amigos trepam entre si, o amor acaba.

No carinho que o Senhor nutre pelo escravo que lhe serve, o amor acaba.

O jornal da noite informa que a cada um dia e meio um homossexual é assassinado no Brasil, e o amor acaba.

Ainda não se sabe o que norteia as batidas do coração de um inseto. Músculos alares, regulação nervosa ou neuro-hormonal. E na dúvida, o amor acaba.

O amor acaba e é sempre pior se você não sabe tocar guitarra. O amor acaba no lugar mais aconchegante da sua casa, com sua mãe feliz por um dia, com sua avó ainda viva, com seu pai não sei aonde, com seus irmãos em meio a entrelaçadeiras e fomes nobres.

O amor acaba porque você não traiu direito. Ou porque você não tinha o direito. O amor acaba sem por que, otário.

O amor acaba e tanto faz. Acaba quando toca Don't speak. Acaba quando toca As curvas da estrada de Santos. O amor acaba quando toca Baby can I hold you? O amor acaba quando toca Grand' Hotel.

E tanto faz, sabe por quê? Fico constrangido de dizer... Porque o amor é eclético.
O amor acaba igual frio acaba. Chuva passa. Ou para. Boiada. Trem de ferro. Filme no cinema. Febre. Mão. Soluço. Soluço passa ou para.

O amor não. O amor acaba.

O amor acaba daqui a 5 minutos. O amor acaba sozinho, assim como a primavera acaba, e a infância acaba, a esperança acaba, os sonhos acabam.

E por mais que acabe, por mais que nunca acabe sempre, a questão é: o amor ainda começa.

P.



Certa vez, em entrevista, Antonio Prata afirmou que todo cronista deve fazer uma versão de O amor acaba, crônica de Paulo Mendes Campos. Essa é a minha versão. O texto do Paulo você lê aqui

Imagem: Tirei do filme Weekend [Dir: Andrew Haigh Roteiro: Andrew Haigh. Ano: 2011. Orígem: Reino Unido. Gênero: Drama/Romance].
Até.