quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Os covardes

Aliás era primavera. Uma bondade perigosa estava no ar.
A menor mulher do mundo, Clarice Lispector

Hoje eu participo com uma comunicação e como coordenador de sessão do VI Seminário de Pesquisa em Filosofia e XVII Semana filosófica da Universidade Estadual de Montes Claros [Unimontes], com o tema Filosofia e tecnologia em diálogo: as implicações, os avanços e os retrocessos da sociedade tecnológica

Entre as possibilidades de temas dessa sociedade tecnológica, considerando sobretudo os avanços e os retrocessos, escolhi falar sobre biopolítica e biopoder através do conto A menor mulher do mundo, de Clarice Lispector. Quem conhece o conto sabe o quanto os paradoxos entre o que é e o que não é, assim como todos os demais paradoxos da sociedade moderna, são colocados em cheque e subvertidos pela linguagem simples e violentamente poética de Lispector, o que torna tudo mais interessante: Clarice age sem ironia e sem ressentimento, provando que a intuição pode avançar muito mais que a técnica e o conhecimento dado e imposto como forma única de razão. 

Meu artigo, "Os covardes ou o real tamanho do homem: a biopolítica como cálculo sobre o corpo das mulheres em A menor mulher do mundo, de Clarice Lispector", trata das feridas entre homens e mulheres na tentativa de alertar para uma condição que homem nenhum deseja para si mas que impõe como falso exercício de poder, o que, por inconsequência, não é menos grave, ao contrário, torna a questão ainda mais decepcionante e dolorida. 

Soa dramático porque é.

O machismo enquanto realidade que fere homens e mulheres por falsa segurança em função de uma construção moral sustentada pelo medo e pela covardia, é o que está em jogo. Aliás, covarde é um nome excelente para rebatizar os machistas, sejam homens ou mulheres. Covardes!     

Qual é o real tamanho do homem? 
Eis um dos questionamentos lançados por Clarice Lispector ao escrever o conto A menor mulher do mundo. Para respondê-lo é preciso pensar as dimensões e implicações do corpo. No caso do conto em questão, é urgente avaliar o cálculo da biopolítica sobre a vida das mulheres e pensar o que é o corpo como calunia e cárcere, considerando, sobretudo, a história das mulheres e as questões de gênero. 

Todo substrato humano dado pela ficção de Clarice será a matéria para repensar o sentimento de posse que há no homem moderno já sob o impacto do que é apenas aparentemente menor e que, a partir de tal repercussão, ganha a chance de atingir o tamanho próprio.

Pensar a mulher a partir das repercussões do corpo dentro do universo clariceano tem me proporcionado muito prazer e muita angustia também. O primeiro prazer é o de reafirmar sem medo que existe, sim, literatura feminina, literatura de mulher. Prazer de afirmar que mulher existe! Eu estou de corpo e alma entregue à causa das mulheres. Como homem e como macho que se reconhece como ser político, sinto-me no dever de legitimar em mim e no outro a dignidade que tantos insistem que não é inerente à mulher, sobretudo no campo da subjetividade, do gesto simbólico, da linguagem. E quando faço isso dou um passo além de mim. Nada disso se dá sem conflitos. 

A agonia acontece simplesmente porque pensar as questões de gênero é, particularmente, sempre muito sofrido. Pois todas as informações sobre a história das mulheres (bem como de todas as minorias) são sobrecarregadas de muito sofrimento. Além do que, eu sou homem, e quando apoio às mulheres compro uma briga com os iguais/rivais do patriarcado. Pago eu, pagam as mulheres. Ser sai caro.   


Mas sim, a mulher existe! E há a vontade de que a mulher exista apenas enquanto corpo. Definitivamente, uma das singularidades dos textos de Clarice está no corpo do texto. Palavra também é carne. Palavra também habita. Palavra também é morada. Meu corpo-palavra: a morada do ser. E o corpo do texto dessa autora é um corpo de mulher. Clarice sabia e apostava em sua condição no mundo – algo que eu também tento fazer humildemente. Assim, é incontestável a potência do corpo da mulher enquanto gerador de vida e morte, harmonia e caos. Para Clarice, o corpo da mulher por si só não poderia jamais ser resumido. Tanto que em A menor mulher do mundo encontramos uma mulher com um corpo mínimo, porém capaz de romper e desnortear uma sociedade inteira e sobretudo o homem.


Todas as possibilidades de mulher enquanto ser no mundo causaram no homem, sobretudo em um primeiro momento, insegurança, medo e ódio. As consequências foram – e ainda são – desastrosas. Como o diferente incomoda, eis a triste e caduca e velha constatação. Mesmo entre os pares, mesmo entre os que se amam e se desejam abertamente, pois simplesmente podem.

Ser singular de um outro, uma vez que a existência se dá em compasso mútuo, significa, arbitrariamente, para a mulher, ter que deixar-se abandonar ou ser simplesmente abandona. Significa ser subjugada e se armar constantemente com escudos secretos, forjar (fingir/dissimular) “com anos de prática” uma realidade externa para “disfarçar de si mesma a ansiedade, o sonho, e milênios perdidos” e encobrir a realidade interior que, ao fim, jamais é suplantada.


Tal dissimulação, é preciso que eu deixe bem claro, não se refere à falsidade sustentada pelo senso comum que só consegue pensar a mulher como oposto e a partir do homem. Mas refere-se a uma re-ação: a mulher não dissimula naturalmente, a mulher não tem no seu ser uma capacidade nata de fingir e nem a mentira e a falsidade são constituintes em qualquer grau da sua essência. As mulheres que fingem, as mulheres que precisam se dar por satisfeitas, as mulheres que atuam como mulheres felizes têm comumente como outra opção a falsa possibilidade que lhes garantiria apenas a violência, o abandono, a dominação  posto que a elas foi negado o direito de ser. Como eu disse, ser sai caro e muitas vezes não temos moedas suficientes para nos bancarmos...  


Os homens sempre estiveram no poder e fizeram da força e do que se chama ‘masculino’ uma realidade única e altamente  desejável, embora sempre carente de platéia, mas que, ao ser questionada ou negada, aprisiona e fere. Simplesmente porque podem tudo, os homens mentem e fingem e dissimulam muito mais que as mulheres.   


Quando a mulher não usa tais escudos, ou quando não usa o feminino inventado mas sim o que ela própria elege como ‘coisa de mulher’ – para Clarice, por exemplo, nada era mais ‘feminino’ que a escrita, um território dominado por homens tanto quanto a filosofia – ainda hoje ela vê-se “em um lugar solitário” seja no campo da literatura e da filosofia, seja no campo pessoal, afetivo, amoroso, profissional. 

Converso mais sobre o tema ainda hoje no Campo de Ciências Humanas da Unimontes, sala 73, 17h. 

Até lá,
P.

Imagem: Encontrei essa imagem escaneada de um HQ da Marvel no Gugol/Imagens faz tempo. É a Vampira lutando contra um bioandroide do Homem de Ferro: homem, mulher, avanço, retrocesso, tecnologia...