quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Como citar Clarice 1



Sou feliz na hora errada.

Eu sei que nenhum livro meu é fácil, mas é fácil para quem acredita no mistério.

Escrevo porque, honestamente, eu tenho força para isso.

Mas há o hábito e o hábito anestesia.

Graças a Deus, tenho o que comer.

Eu não quero apostar corrida comigo mesma.

Vejo pouco, ouço quase nada.

O corpo informa muito.

Eu sou uma pergunta.

Eu sou feita inteira de pensamento.

Nunca a vida foi tão atual como hoje: por um triz é o futuro. O tempo não existe. O tempo passa depressa demais e a vida é tão curta. Então – para que eu não seja engolida pela voracidade das horas e pelas novidades que fazem o tempo passar depressa – eu cultivo um certo tédio. Degusto assim cada detestável minuto.

Eu não aguento o cotidiano. Deve ser por isso que escrevo. Minha vida é um único dia. Tudo numa só vertigem. Insuportável cócega na alma. Viver é mágico e totalmente inexplicável. Eu compreendo melhor a morte. Ser cotidiano é um vício.

Eu não aplico o proibido mas eu o liberto. As coisas obedecem ao sopro vital. Nasce-se para fruir. E fruir já é nascer. O que tenho me entra pela pele e me faz agir sensualmente.  

Que me perdoem os fiéis no templo: mas eu escrevo! Eu digo amém!

A solidão, a mesma que existe em cada um, me faz inventar.

...ligou o rádio e pegou um homem no meio de um pensamento: "flauta e viola"... disse o homem e de repente ela não aguentou e desligou o rádio. Como se "flauta e viola" fossem na realidade o seu secreto, ambicionado e inalcançável modo de ser. Teve coragem e disse baixinho: flauta e viola.

Quando sinto uma inspiração, morro de medo porque sei que de novo vou viajar sozinha num mundo que me repele. Mas meus personagens não têm culpa disso e eu os trato o melhor possível. Eles vêm de lugar nenhum. São a minha própria inspiração. 

Existem leis que regem a comunicação. A impessoalidade é uma condição. A separatividade e a ignorância são o pecado num sentido geral. E a loucura é a tentação de ser totalmente o poder. As minhas limitações são a matéria-prima a ser trabalhada enquanto não se atinge o objetivo.   

Tenho que começar por aceitar-me e não sentir o horror punitivo de cada vez que eu caio, pois quando caio a raça humana em mim também cai. Aceitar-me plenamente? É uma violentação de minha vida.  

Benditos sejam os teus amores.

Escrevo muito simples e muito nu. Por isso fere.

Tanta falsa inspiração. E quando vem a verdadeira e eu não tomo conhecimento dela? Será horrível demais querer se aproximar dentro de si mesmo do límpido eu? Sim, e é quando o eu passa a não existir mais, a não reivindicar nada, passa a fazer parte da árvore da vida – é por isso que luto por alcançar. Esquecer-se de si mesmo e no entanto viver tão intensamente. 

Deus não deve ser pensado jamais senão Ele foge ou eu fujo. Deus deve ser ignorado e sentido. Então Ele age.


Eu queria escrever um livro. Eu queria que me dessem licença para eu escrever ao som harpejado e agreste a sucata da palavra. E prescindir de ser discursivo. Assim: poluição. Escrevo ou não escrevo? Saber desistir. Abandonar ou não abandonar. A arte de abandonar não é ensinada a ninguém. E está longe de ser rara a situação angustiosa em que devo decidir se há algum sentido em prosseguir. Serei capaz de abandonar nobremente? Tenho medo de escrever. É tão perigoso. Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que está oculto – e o mundo não está à tona, está oculto em suas raízes submersas em profundidades do mar. Raízes semoventes que não estão plantadas. Pois também solto as minhas amarras: mato o que me perturba e o bom e o ruim me perturbam, e vou definitivamente ao encontro de um mundo que está dentro de mim, eu que escrevo para me livrar da carga difícil de uma pessoa ser ela mesma. Em cada palavra pulsa um coração. Escrever é tal procura por íntima veracidade de vida. Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio é que existo intuitivamente. Mas é um vazio terrivelmente perigoso: dele arranco sangue. Quero quebrar o enigma das coisas. Eu escrevo para nada e para ninguém. Se alguém me ler será por conta própria e autorrisco. O resultado fatal de eu viver é o ato de escrever. Escrever é uma pedra lançada no poço fundo. Meditação leve e terna sobre o nada. Quero escrever esquálido e estrutural como o resultado de esquadros, compassos e agudos ângulos de estreito enigmático triângulo. “Escrever” existe por si mesmo? Não. É apenas o reflexo de uma coisa que pergunta. Eu trabalho com o inesperado. Escrevo como escrevo e sem saber como e por quê – é por fatalidade de voz. O meu timbre sou eu. Escrever é uma indagação. É assim:

Imagem: Acervo pessoal da autora.