domingo, 22 de julho de 2012

R(ita) de Raiva

           
          Nenhuma outra paixão consegue estimular e assimilar tantos contrastes quanto a ira. E ao mesmo tempo, nada é mais desestimulante e repulsivo.
A ira é um ímã, com o dipolo invertido, no qual se fincam paradoxos e contradições.
A ira não cria nada, jamais.  Porém, por desrespeitar tudo, principalmente a si mesma, inventa buracos pelos quais transita livremente – e está presa a essa forma de trânsito.
Esses buracos, essas formas de chegar e sair, são os conceitos éticos que a ira inverte, subverte, arremeda e caçoa.
Fiel aos extremos, a ira é o impulso cego, é o lar sem teto da irracionalidade. Só consegue o que já tem – qualquer ou todo mal.
A ira é precoce, efêmera, ágil em desastres e infeliz.
Por ser esse destroço que criou pernas e braços que se metem uns pelos outros, a ira é incapaz de qualquer raciocínio lógico, de deduções, de ponderar ou mesmo de pensar!
Pois sim, a ira não pensa: explode em palavras farpadas e olhares rasgados.
Uma chuva de canivetes, a ira.
Como eu disse, ela é cega – cega dos olhos e incapaz de olhar para dentro.
A escuridão é seu mapa. E é para esse lugar sem luz que a ira empurra o mundo.  
      A Nina/Rita, personagem de Débora Falabella na novela global Avenida Brasil, escrita por João Emanuel Carneiro, é o exemplo contrário de um ser humano irado. Ou de alguém com raiva, como se costuma dizer.
Nina pensa a longo prazo e calcula seus passos. Elaborou um esquema de conduta, uma vingança que é executada aos poucos, um plano que exige frieza e racionalidade. A ira é sempre febril e sem sentido, é sempre excessiva e de uma vez.
E embora a personagem de Falabella tenha momentos de indignação, ela jamais se permite à ira. Se assim fosse, se ela entrasse em contato com a ira, tudo já teria se perdido e com muito mais dor do que foi presenciado até agora, pois na ira há apenas derrotados. Lesados. Ninguém e nenhum lado ganha jamais. 
P.

Imagem: Peguei no Google/Imagens...