terça-feira, 19 de junho de 2012

A invenção do asteróide


Quando escrevi o primeiro e até então único texto desse blog, seis meses atrás, eu não usava barba [meu Deus!], meus joelhos não eram assim limitados, meu estomago e o café de que tanto gosto não se desentendiam jamais. E eu me divertia com cansaço.
A vida leva tempo. E o tempo é impacto puro. É por isso que se descobre os dinossauros. É assim que se inventa asteróides..
Eu mudei demais em poucas coisas. E assim notei transformações essenciais e, algumas, inclusive, na minha essência. Um asteróide bateu em mim. O tempo inteiro, dentro de todos, um asteróide bate. Agora, estou no momento que nasce depois do choque. Viver é mais improvável que escrever. Quando escrevo, respiro melhor. Respirando melhor, tento viver o melhor possível. O amor no claro – bastante, bastante improvável...
O complexo universal do reino das palavras: o grito que ninguém escuta.
Mas eu me dou ao menos o direito ao grito! Ainda que subitamente todos ensurdeçam. Ainda que todos afirmem “em uma só voz” que é impossível entender o que está escrito.

O que é o poema?
Ora, o que é você?! As palavras são vivas.
O que é o poeta?
Muitos são chamados e poucos são escolhidos.

E cá estou eu com um metro de tule amarelo roxo feito com fios de casulos. As borboletas ficam à vontade demais na minha presença. E pairam no ar. Não é sequer preciso que eu corra atrás delas. Só tenho o tule. Não há haste. Não há alongamento. Preciso, ainda que seja nobre o meu gesto, capturá-las. Ainda que elas me permitam e se permitam, ainda assim eu preciso jogar o tule sobre elas. Mas são tão bonitas e felizes. Abrem e fecham as asas como se bombeassem sangue. E eu sinto cada uma antes mesmo de senti-las, curando o que é para ser centro, foco, casa, chacra e que foi ferido de morte, tornando-se um poço de acidez cancerígena borbulhante...
Não posso fazer como os que simplesmente podem e enfiam a mão em um embornal de algodão cru e forjam uma ideia com palavras que não passam de um bingo verbal. Eu até gostaria de contar com a sorte dos cegos que se guiam com o “a vida é assim mesmo” ou com o descanso dos sonâmbulos que elogiam a burrice repetindo, repetindo, repetindo...
Mentira. Eu gostaria mesmo é de café. Gostaria de algo saboroso e forte. Algo que vem sempre acompanhado de um ritual, de alívio, de um despertar. Algo que acorde meus sentidos. Algo que é escuro e se revela. Estou cansado desse falso desejo de luz que tantos dizem ter.
Sei o que é ser. E sei o que é em mim. E em seis meses, gradativamente, eu que queria apenas escrever, deparei-me com questões como o que é que eu escrevo? que professor eu sou? de que maneira posso libertar o que escrevo do que se chama ‘agora’ e como afastar o fantasma da posteridade? o que é o aluno? o que é a sala de aula? como eu quero que seja minha aula? qual é o timbre da minha voz? como eu quero soar? por quem eu quero ser ouvido? qual é a minha linguagem antes de minha própria consciência dela? quem eu sou quando sou o que eu desejo ser?     
Então descobri que minha pesquisa é, antes de mais nada, uma investigação sobre mim mesmo. Pesquiso literatura, portanto, pesquiso o humano. Meu principal objeto de pesquisa sou eu e você. Sinto-me em paz quando afirmo isso. E por falar em paz, não sei se você sabe, estamos em guerra.
Eu escrevo 24 horas por dia ainda que eu não escreva. Mas preciso escrever. Como preciso capturar borboletas. Acabei de capturar uma. Veremos se amanhã eu volto com outra.     

P.
Imagem: Stranger than fiction [Mais estranho que a ficção. Dir: Marc Foster. Roteiro: Zach Helm. Ano: 2006. País: EUA. Gênero: Drama/Comédia].