terça-feira, 27 de dezembro de 2011

[Re]Fluxo de consciência

Começo hoje a escrever minha dissertação. Hoje também começo este relatório online – Recreio de nerd – diálogo/monólogo sobre meu processo/método de escrita.
Medo, reclusão, solidão e abandono: sentimentos com força própria, muito particular, e que atravessam meu corpo todo sem qualquer ritmo ou pressa.
Possivelmente, porque eu entendo a dimensão do que desejo fazer. O que me lança em um conflito que não existe, que eu mesmo crio (?).  Explico: o meu pensamento se bifurca. Fico no meio de um “ou isto ou aquilo” que não apenas paralisa como também machuca bastante.
A questão é: existe apenas o isto. Não há nenhum aquilo.
Não sou, portanto, desses que escolhem, desses que podem escolher. Eu não tive opções ou escolhas. Não sou dos que optam... Esse é um ponto que poucos ao me redor percebem... ou entendem.
Quando trata-se de escrita/pesquisa nunca foi uma opção. Era o que era.  É o que é. O que eu sou.
Um aquilo, que não seja o ócio, e que’u saiba fazer do mesmo modo completo e contrário, criativo e natural e tão satisfatório como o que escrevo, como meu modo de ler e pesquisar – um aquilo equivalente a isto não há.
Não há no âmbito profissional [sou um escriba] e não há no campo pessoal [I’m a lone wolf].
Por isso cá estou, estudando. Tentando pensar. Tentado construir um lugar leve que sustente uma liberdade maior.
Pois bem, depois de um ano de estudos e de cursar e cumprir disciplinas obrigatórias e demais requisitos do Programa de Pós-Graduação em Letras e Estudos Literários [Unimontes], do qual sou membro, dedicando-me particularmente a questões estéticas, éticas, poéticas e metaliterárias, achei por bem rever todo o material estudado e selecionar livros e textos que preciso reler e pesquisar de maneira mais severa.
Eis o que tenho, agora, como dever de casa. As seguintes releituras:

Há, como deveria, um número considerável de textos sobre Clarice. Cópias de artigos, dissertações e teses que colhi em seminários, simpósios e congressos de universidades distintas, de diversos lugares [Federal de Minas, de São João Del-Rei, de São Paulo e vai...]. A grande maioria desses trabalhos é sobre a escrita de Clarice. Dois sobre as crônicas. Sobre crônica há também um longo texto do Massaud Moisés de que gosto muito. E diversos artigos e capítulos sobre jornalismo literário, jornalismo opinativo, metamídia, televisão e indústria cultural.
Preciso reler também textos de Lacan, Derrida, Wittgenstein, Benedito Nunes (), Kothe, Perrone-Moisés, Bordini, Deleuze e Guattarri.  E de todos esses, os textos variam entre quatro ou mais. Ou entre dois livros ou mais.
Há um texto de Manuel Gusmão – O texto da filosofia e a experiência literária. Um outro que desconheço a autoria, intitulado A tessitura de textos e o tear da escritura.
Maria de Bastiani - Cartas amarelas [tenho apenas a edição de 1905].
De Hugo Friederich - Estrutura da lírica moderna.
José Thomaz Brumm - O pessimismo e suas vontades.
Judith Butler - Problemas de gênero.
De Berenice Do - Os olhos do tempo, A água da chuva e outros sonhos e A biografia da peste.
E mil coisas de J. L. Lafetá. E tantas outras de Roland Barthes.
Cogitei ainda reler O copo, de Julian Ana. Desisti.
E uns livros que chegaram da maneira mais estranha até mim, depois conto, de Philippe Julien, Lewis Engel/Tom Ferguson e um outro que, juro, também não sei de quem é a autoria, embora trate do mesmo assunto que os demais deste parágrafo: a mente humana.
Aliás, a bem da verdade, todos os livros que leio são sobre a mente humana...
Bom, esses são os livros que vou reler por conta e risco e por questão de justiça comigo mesmo. Por estudar de forma sistematizada, com objetivos e metas pré-estabelecidas, e dentro de uma Universidade, precisei dedicar-me muitas vezes a questões que não eram de minha preferência. Quando precisei ler e escrever por puro senso de obrigação, notei que a relação que estabeleci [ou que desfiz] com os autores definiu com força ainda maior a minha linha de pesquisa, minha auto-formação de pesquisador, da criação do que chamam de escola, do que me define, como gosto de pensar, enquanto um pequeno filósofo....
Agora, nesse momento de releitura, estão comigo apenas os autores que tratam de temas que eu quero cuidar também. Por isso preciso saber bem. Toda leitura que um leitor-modelo identifica para um trabalho de escritura/pensamento contribui, evidentemente, para sua produção intelectual, contudo, há leituras diretas que preciso fazer.
Hoje releio A psicanálise do fogo, de Gaston Bachelard, livro-chave-mestra para certas questões que levitam em meu pensamento de forma cada vez mais clara e transparente. Bolhas de sabão entregues a um auto-sacrifício silencioso para que o verdadeiro estouro aconteça no pensamento.
Eu volto a escrever assim que terminar de reler algumas coisas.


Até mais.
Pablo.


Imagem: Amelie [O fabuloso destino de Amélie Poulain. Dir: Jean-Pierre Jeunet. Ano: 2001. País: França. Gênero: Drama/Comédia].